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Por: Redação Ligado em Série

Crítica | Birdman

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Vez ou outra nos deparamos com certas produções cinematográficas que, na ânsia de se mostrarem suficientemente profundas em seu roteiro, acabam por atirar em várias direções sem se aprofundar em nenhum dos aspectos que se propunham a tratar no esboço inicial. Mas o que vemos em Birdman é um profundo estudo de personagem, aliado a uma crítica feroz ao show business e de certas figuras que transitam pela Broadway, o que tornam o filme uma mistura de vários elementos que nunca deixa de apresentar e desenvolver pontos relevantes que tornam os personagens ainda mais complexos, e por isso, mais fascinantes.

Escrito por Nicólas Giacobone, Alexander Dinelaris Jr., Armando Bo e Alejandro González Iñarritu (que também assume a direção), o filme conta a história de Riggan Thomson (Michael Keaton), um ator que fez grande sucesso na pele do super-herói Birdman, papel que lhe rendeu a fama instantânea, mas que acabou por limitar os convites para atuar em filmes diferentes. Após se recusar a estrelar o quarto filme da franquia, Thomson viu sua carreira naufragar e, mais de 20 anos depois tenta provar a si mesmo e aos outros que é capaz de encarar papeis mais densos ao escrever, produzir e dirigir um espetáculo na Broadway.

Traçando um interessante panorama do que se passa nos bastidores dos espetáculos que ocorrem em um dos lugares mais famosos do mundo, o filme evita glamourizar o que ocorre por trás do palco formando um belo contraste entre as luzes e o esplendor da fachada do teatro e as paredes descascadas e mal iluminadas dos corredores pelos quais os atores e demais funcionários transitam para fazer com que o espetáculo aconteça no palco. Do mesmo modo, o design de produção se mostra eficiente ao transformar o camarim de Riggan em um ambiente depressivo, insalubre e mal arrumado, que espelha o que se passa no interior do sujeito, que parece estar o tempo todo oscilando entre a tristeza e a fúria.

E são essas as características que tornam Riggan um sujeito tão complexo: encarnado por Michael Keaton numa performance espetacular que provavelmente lhe renderá um merecido Oscar, Riggan se ressente do mundo por não lhe dar o valor artístico que ele julga merecer (chegando a comparar sua situação com Farrah Fawcett, que veio a falecer no mesmo dia que Michael Jackson, mas acabou ofuscada), ao mesmo tempo em que tenta ressuscitar sua carreira e conquistar o respeito da própria filha. Nesse ponto, Keaton acerta brilhantemente ao investir nos trejeitos de Thomson, desde seu olhar perdido em grande parte das cenas em que aparece sozinho até o suspiro de cansaço que ele dá no momento em que retira a peruca (como se apenas nesse momento ele se despisse de seu personagem). Nessas ocasiões, nos damos conta do enorme peso que este parece carregar nos ombros, o que só é aliviado quando ele finalmente aceita as opiniões de seu “alter ego”, e nesses momentos vislumbramos os únicos instantes em que Riggan parece verdadeiramente feliz (não é à toa que, em determinada cena no hospital, ele aparece com um curativo que remete diretamente à mascara que seu personagem usava em cena).

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O filme também consegue ser igualmente interessante quando se foca nos conflitos de outros personagens, como Mike Shiner (Edward Norton), um ator que é escalado às pressas para um dos principais papeis na peça de Thomson e se mostra alguém muito difícil de lidar, além de Sam (Emma Stone), filha de Riggan que acabou de sair de uma clínica de desintoxicação e também trabalha nos bastidores da peça. Nesse ponto o desempenho dos atores é bastante eficiente, ainda que a indicação de Emma Stone ao Oscar tenha sido, a meu ver, um exagero. Do mesmo modo, é um fator positivo ver Zach Galifianakis interpretando um personagem bem diferente daqueles que vinha incorporando nos últimos anos (o gordinho sem noção), apesar de ter pouco tempo de tela. Apesar disso, o roteiro acaba cometendo alguns deslizes: em certo momento um romance lésbico entre duas personagens é insinuado, mas rapidamente é esquecido, o que acaba tornando tudo apenas desperdício de tempo. Além disso, a relação entre Mike e sua esposa é abandonada no terceiro ato do filme, sem maiores explicações.

Ainda assim, Birdman sempre se destaca quando direciona seu foco para uma crítica contumaz ao mundo do showbizz, quando personifica na figura da crítica Tabitha Dickenson a arrogância daqueles que se acham os donos da verdade e formadores de opinião. Sabendo que detém o poder de arrasar a carreira de qualquer ator que pise nos palcos de um teatro da Broadway, e descartando o lado profissional em detrimento do pessoal, Tabitha tem a pretensão das pessoas que se acham cultas apenas por não aprovarem determinado tipo de entretenimento (como se alguém que curte séries, seriados, novelas, minisséries e filmes tivesse intelecto inferior a alguém que prefere o teatro), e seu discurso diante de Riggan é a prova de que alguns críticos não sabem realmente para que serve sua profissão (que deve analisar e enriquecer o material assistido e não dizer “não assista, é uma porcaria”).

Já a direção de Alejandro González Iñarritu merece todos os aplausos pelo brilhantismo com que emprega o plano-sequência a todo momento durante a projeção (e para quem adora planos-sequência como eu, é um êxtase). Ao mesmo tempo, é impressionante como o cineasta consegue sempre empregar novos enquadramentos de câmera de modo a nos mostrar um ângulo diferente do palco, desde a posição do iluminador até as coxias, além de eventualmente utilizar um travelling circular durante os momentos em que a peça está sendo encenada de modo a olhar os bastidores e logo depois assistirmos a reação do público diante do que está sendo mostrado no palco.

Insinuando uma possível esquizofrenia de Riggan em vários momentos da projeção, o roteiro inverte tudo isso em seu ato final, trazendo um desfecho impactante e belo para seu protagonista que, ao conseguir reaver a glória da admiração que há tanto tempo procurava reencontrar, acaba por abraçar o personagem que o limitou por tanto tempo.

5star

3 respostas para “Crítica | Birdman”

  1. Marcos disse:

    Não vejo a hora de assistir. Acostumado com os filmes de Linklater, onde as conversas são em vários planos-sequencia, espero algo tão bom quanto

  2. O filme inteiro é um plano sequência ;)

  3. Tu madre disse:

    Uma merda…

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