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Por: Allan Verissimo

Crítica | Game of Thrones 5×06: Unbowed, Unbent, Unbroken

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[com spoilers dos livros e da série] Estou confuso. Após terem entregado o melhor episódio da quinta temporada, Kill the Boy, o diretor Jeremy Podeswa e o roteirista Bryan Cogman nos surpreendem negativamente com este Unbowed, Unbent, Unbroken (título que parece até uma piada de mau gosto dos roteiristas),um capítulo irregular, que acerta em alguns núcleos apenas para errar de maneira desastrosa em outros.

Após uma ausência sentida, retornamos a Braavos e ao treinamento de Arya Stark. Enquanto os demais núcleos seguem num ritmo rápido, a trama de Arya é desenvolvida de forma mais cuidadosa e talvez seja isso o que a torna bem-sucedida. As cenas do Jogo das Faces com a personagem de Faye Marsay e com Jaqen H’ghar são bem executadas graças à fotografia, ao jogo de câmera e ao trabalho dos atores (e é um detalhe bacana: a descoberta de que Arya não odeia o Cão), assim como o momento em que a garota dá a Dádiva da Misericórdia a uma criança. Mas o destaque mesmo fica para a sequência da sala onde ficam as faces penduradas. É uma cena impressionante, graças à bela composição dos eveitos visuais e à trilha de Ramin Djawadi (perceberam que a música da cena é uma versão mais lenta e sombria do tema “The Children”?).

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Enquanto isso, em Essos, a dinâmica de Tyrion com Jorah continua a entregar bons frutos. Iain Glen consegue expressar toda a dor com a notícia da morte do pai sem ter que dizer nada: apenas o seu olhar já revela o quanto ele lamenta o fato de que jamais verá novamente o pai que ele tanto decepcionou. Um momento breve, tocante, e que serviu para aproximar ainda mais os dois personagens, sem parecer forçado. Logo em seguida, Tyrion faz as perguntas que todos os fãs já devem ter feito pelo menos uma vez: Por que Daenerys? Quem garante que ela será uma boa rainha? Por que o povo deveria aceitar ser governado por uma mulher que não passou nem um dia de sua vida em Westeros? E qual é o seu direito de governar? Apenas por ser filha de um homem que todos desprezavam e temiam? Infelizmente, não temos a chance de escutar o ponto de vista de Jorah sobre essas perguntas, pois traficantes de escravos acabam brotando do nada (literalmente, já que eles estavam a alguns metros da dupla, que sabe-se lá como, não os viram e nem escutaram). Tivemos uma boa participação de Adewale Akinnuoye-Agbaje (o saudoso Mr. Eko de LOST), e um dos diálogos mais divertidos que Tyrion já nos proporcionou, com direito a uma pérola: “O anão vive até encontrarmos um mercador de pintos”. Deve ser uma profissão ingrata…

Já em Dorne… Meu Deus, o que fizeram com esse núcleo? Uma das melhores tramas do livro O Festim dos Corvos foi destruída na adaptação. Na bobra de George R.R. Martin, Dorne é diferente das demais regiões de Westeros por um detalhe que não foi explicado na série. Lá existe uma igualdade entre homens e mulheres nos direitos de sucessão. Uma das Serpentes de Areia cogita a ideia de coroar Myrcella como rainha para que, assim, eles se rebelem contra os Lannisters. Quem tenta executar a ideia é Arianne, a filha do príncipe Doran. Como podem ver, teoricamente, é um plano pacifico, e que respeita a garota Lannister. Além disso, Ellaria Sand é totalmente contra a ideia de vingança, pois sabe que isso apenas irá trazer mais mortes e tragédias.

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E o que vemos disso na série? Nada. Arianne, uma das personagens femininas mais fortes dos livros, foi cortada aqui. Ellaria tornou-se uma mulher vingativa e sedenta de sangue. As Serpentes de Areia, tão distintas entre si (fisicamente e psicologicamente), viraram caricaturas, e sem nenhum traço de personalidade que as diferencia uma da outra. O plano delas é assassinar Myrcella, para assim forçar Doran a entrar em guerra com os Lannisters. Ou seja, as Serpentes já perdem a nossa empatia, pois só sabemos que elas querem matar uma garota inocente. E o pior: somos forçados a torcer por Jaime, que acaba se tornando o protagonista e heroi do núcleo.

Até há algumas coisas boas, como Bronn cantando “The Dornishman’s Wife” (e que eu suspeito que já deve ser uma pista do destino do personagem) e as boas participações de Alexander Siddig e DeObia Oparei. Mas nada disso consegue apagar o absurdo que é Jaime e Bronn decidirem sequestrar Myrcella ao MESMO tempo em que as Serpentes tentam executar seu plano. E por sinal, como é fácil entrar naquele palácio, não? Ainda somos forçados a assistir a pior coreografia de luta EVER de toda a série. Alguém conseguiu entender o que estava acontecendo? Pelo menos a prisão de Jaime deve fazer com que ele interaja com Doran, e vamos torcer para que isso redima o desastre que essa adaptação está sendo.

Felizmente, Porto Real entra em cena, com resultados mais satisfatórios. Mindinho acaba nos confundindo de vez com esse novo plano, e eu realmente não faço ideia de quem ele pretende enganar: Cersei ou Sansa. Tivemos o aguardado retorno de Olenna Tyrell (Diana Rigg), que rendeu um ótimo momento da personagem com Cersei. E na sequência do interrogatório, tenho que destacar Finn Jones, que finalmente teve uma chance de brilhar na temporada, e que apenas me faz lamentar como Loras Tyrell poderia ter sido mais bem aproveitado pela série. O desfecho da cena, com a prisão de Margaery, deixa claro que o embate entre Cersei e os Tyrell deve atingiu o auge na reta final da temporada.

E chegamos ao ponto mais polêmico do episódio.

A sequência de Myranda lavando os cabelos de Sansa me parece uma rima visual com a sequência de Arya lavando os cabelos de um cadáver em Braavos. Sansa também teve o seu momento de autoridade quando ela enfrenta Myranda: “Esta é a minha casa, e você não irá me assustar”. Toda a sequência do casamento também foi visualmente belíssima, e tenho que destacar um detalhe que me encantou: no momento em que Theon fala “Theon, da Casa Greyjoy, que era… o protegido do seu pai”, Alfie Allen consegue transmitir tanta dor, tanto conflito, tanto remorso, em apenas uma pausa no meio da frase (não sei se foi improvisação do ator ou se isso já estava no roteiro, mas foi muito bom).

O que nos leva a sequência final.

Vamos por partes: do ponto de vista técnico, a sequência foi muito bem realizada. Isso é inegável. A direção, a trilha sonora de Ramin Djawadi, e as grandes atuações de Sophie Turner, Alfie Allen e Iwan Rheon… Tudo contribui para a cena ser desconfortável e repugnante, o que era o objetivo dos seus realizadores. Mas do ponto de vista narrativo, a cena é errada. E gratuita.

Nos livros existe uma personagem chamada Jeyne Poole. Ela é a melhor amiga de Sansa em Winterfell e viaja com ela para Porto Real. O seu pai acaba sendo assassinado pelos Lannisters (quando Joffrey torna-se rei), e ela desaparece da trama, ficando aos cuidados de Mindinho. Fica então sugerido que Mindinho a forçou a trabalhar como prostituta em seus bordeis. Muito mais tarde, após o Casamento Vermelho, Tywin a envia para os Boltons, para se casar com Ramsay assumindo a identidade de Arya (ironicamente, Jeyne detestava Arya). Assim, os Boltons ganharão de vez o apoio das Casas do Norte. Antes mesmo de se casar, Jeyne já é uma garota traumatizada, e ela implora a Theon por ajuda. O casamento ocorre, e Jeyne é violentada em circunstâncias ainda mais revoltantes e brutais, e a personagem acaba destruindo-se psicologicamente de vez.

Nos últimos cinco anos, vimos a Sansa da série assumir a mesma jornada da Sansa dos livros: inicialmente uma garota ingênua e sonhadora, com uma visão inocente do mundo, apenas para descobrir a trágica realidade de Porto Real da pior maneira possível. Vimos Sansa se transformar numa garota mais decidida, forte, e mesmo amargurada por tudo que passou, mas disposta a sobreviver, aprendendo a enganar Joffrey em algumas ocasiões (“Lady Sansa ainda pode sobreviver a todos nós”, diz Tyrion na segunda temporada). Aos cuidados de Mindinho, embora possa-se argumentar que ela se torna sua marionete, é inegável que ela também aprende mais sobre o Jogo de Tronos, e até mesmo torna-se manipuladora, como aconteceu em sua sequência com os Senhores do Vale no final da quarta temporada.

E agora, com apenas uma cena, Sansa regride e volta a ser ao papel de vítima nas mãos de um sádico psicopata. No exato momento em que descobrimos que Sansa retornaria para Winterfell e assumiria o papel de Jeyne, era inevitável que isso iria acontecer. Seria forçadíssimo se Ramsay, monstruoso como é, não a violentasse. E é justamente por isso que teria sido melhor não ter alterado essa trama dos livros. Você não pode simplesmente trocar as jornadas de dois personagens e esperar que ambos cheguem ao mesmo destino. Jorah e Jon Connigton são uma coisa, mas Sansa não é Jeyne.

Algumas pessoas argumentam que depois disso, Sansa irá se tornar uma mulher mais forte e decidida. Que ela se unirá com Theon e Brienne para conspirar a ruína dos Boltons. Eu realmente imagino (e espero) que seja isso, e o promo do próximo episódio parece comprovar essa teoria. O que aconteceu também deve fazer com que Theon deixe de vez a persona do Fedor. Mas era realmente necessário a personagem passar por mais um abuso físico e psicológico para que tanto ela quanto Theon decidam assumir o controle da situação? A minha resposta é não, mas daí cada um tem sua interpretação. Agora, dizer que a cena deste episódio de Game of Thrones “não foi estupro”, foi “um suposto estupro”, “até pode ter sido estupro, mas…” já é demais. Sansa foi vítima de estupro e o fato dela ser uma personagem fictícia não muda em nada a gratuidade da cena para aquele momento da história e o impacto negativo que isso traz aos realizadores, e espero que eles logo se redimam disso.

3star

3 respostas para “Crítica | Game of Thrones 5×06: Unbowed, Unbent, Unbroken”

  1. Anderson Lima disse:

    Gostei da sua crítica. Realmente não entendo como os produtores conseguiram “destruir” o núcleo de Dorne. Pelo menos eles não estão fazendo o mesmo com a Dany.

  2. Alex B. Silva disse:

    Eu já estou quase desistindo da série. A trama do livro é muito mais emocionante, surpreende e, acima de tudo, coerente. Creio que eles querem apenas causar polêmica, mas estão é estragando toda a história e deixando furiosa uma legião de fãs.
    Recontar uma parte do livro de uma maneira diferente eu acho excepcinal, desde que essa nova narrativa venha contribuir e construir um enredo até mesmo melhor do que do livro. Coisa que não está dando certo na série, que apenas querem causar polêmica gratuitamente.
    Lamentável o núcleo de dorne. Lamentável a falta de dedicação e respeito pela adaptação do livro. Lamentável ver que muitos confundem o livro com esse lixo que é a série apartir da 5ª temporada. Torço para que os produtores coloque a mão na consciência e para de fazer essa palhaçadas, que já está demais.

  3. Beatriz Rego disse:

    Perfeito

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