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Por: André Costa

Crítica | Divertida Mente

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[contém leves spoilers] Riley é uma menina que, como toda adolescente, gosta de brincar, praticar esportes, andar com as amigas e é feita de computação gráfica. Dentro da cabeça dela, emoções antropomorfizadas regem o painel de controle e aprendem como fazer o melhor para a jovem – entretanto, em uma daquelas típicas confusões envolvendo bolas (quem já brincou com esferas sabe como é), Alegria e Tristeza acabam fora da sala de controle e precisam voltar antes que algo ruim aconteça com Riley (tipo cursar Comunicação Social na faculdade).

A Pixar vinha de maus bocados. Não vi Monsters University, mas Brave é bem mediano e Cars 2 é uma daqueles acidentes automobilísticos que iniciam campanhas de conscientização. Inside Out (Divertida Mente), entretanto, pega a empresa e arremessa lá para o topo: hilário, comovente, envolvente, maduro, complexo e divertido, é um daqueles momentos mágicos onde a Pixar consegue de alguma forma fazer a tela do cinema se desprender da parede e abraçar os espectadores.

Porque Inside Out veste a roupa e sai para a rua com a missão de basicamente mostrar o funcionamento do sistema límbico – e o faz com criatividade descomunal, apresentando de forma simples o complexo sistema de memórias e ilhas, além das emoções (cada uma com uma personalidade e um visual diferente). Ao longo da projeção, diversos conceitos interessantes vão pipocando (memórias principais, ilhas, pensamento abstrato, coisas presas no subconsciente), fazendo com que o filme jamais soe repetitivo ou exaustivo, e os diretores Pete Docter e Ronaldo Del Carmen espremem tudo que podem do conceito original e mais um pouco, sem apelar para soluções ou piadas óbvias. Imagino que o desenvolvimento da animação tenha sido uma máquina de Rube Goldberg de “eurekas!”.

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Mas não é uma produção cerebral – muito pelo contrário: o filme envolve o espectador nos acontecimentos, seja no drama de Alegria e Tristeza (cujos perigos e necessidades são intensos), seja em como as coisas atingem Riley. Fica muito claro o quanto ela gosta de determinadas coisas, e, quando elas se vão, é impossível segurar aquele contorcionismo no estômago.  É uma jornada recompensadora, construída com pistas sutis que vão sendo retomadas durante a narrativa de forma cada vez mais poderosa (Bing Bong, o namorado imaginário, a comovente bola amarela e azul) para provocar risos e lágrimas – Inside Out se supera tanto nos diálogos (“I fold“, “medalha de participação“) como no humor físico (o Medo recebendo diversas boladas). Aliás, os conceitos apresentados são aproveitados com tamanha vitória que o filme possui muito material para despejar cenas engraçadas, e o faz sem nenhuma piedade, como no deja vu, no comercial e nas devastadoras incursões pelos cérebros de outras pessoas (aqui a produção quase coloca o público em órbita).

Visualmente falando, Inside Out é uma pérola de computação gráfica, criando cenários complexos (as ilhas, a terra da imaginação, a produção de sonhos) para que as personagens saiam pulando de lá para cá. O  filme não apenas é bonito (a imagem dos milhares de armários de memórias é impressionante) como também segue uma lógica visual pertinente, colocando São Francisco como uma cidade quase monocromática, por exemplo, ou trabalhando com cuidado no visual das emoções – enquanto a Raiva é vermelha e tem tipo um topete temporário de fogo, a Alegria está sempre em movimento e se mexe de forma incrivelmente fluída, enquanto a Tristeza mantém uma posição arqueada e quase não se move. Os próprios raccords que alternam entre alegria e Riley criam essa unidade entre menina e emoções antropomorfizadas que assumem o volante do comportamento. E essa é uma questão importante: a preocupação daquelas personagens com a Riley é algo genuíno. Sentimos isso, e passamos a nos preocupar com as consequências das ações tanto das emoções, que tipo podem despencar para o esquecimento, quanto da Riley, que vai aos poucos deixando coisas para trás como se fossem canetas caindo da mesa no chão.

Assim, a produção mostra uma maturidade que, sério, é raro de ver em filmes adultos. O arco dramático percorrido por Riley, embora simples, foge das soluções fáceis e mostra que tristeza e melancolia fazem parte do crescimento e são essenciais ao bem-estar da pessoa. E o faz de forma brilhante, ilustrando com criatividade descomunal o funcionamento das emoções e envolvendo completamente o público nessa jornada. A coisa mais curiosa dessa ambição toda de Inside Out é que ela é superada em muito pela execução; é um retrato sensível do que pode acontecer com a cabeça de um adolescente, mas feito com shots descontrolados de humor na dose certa e grandes e pequenos momentos de inspiração que só engrandecem a narrativa (reparem como a mãe de Riley é comandada pela Tristeza, enquanto o pai é comandado pela Raiva, ainda que tais emoções estejam em um nível mais controlado: é uma forma bem sutil de situar a personalidade de ambos). A ciência ainda não conseguiu chegar ao cerne da questão e descobrir exatamente o funcionamento do cérebro, mas, enquanto a resposta deles continua sendo um ponto de interrogação, obras como Inside Out mostram que a arte pode segurar a barra com louvor.

5star

Uma resposta para “Crítica | Divertida Mente”

  1. Magnosama disse:

    O filme é magnifico.
    Pixar no seu melhor.

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