Crítica | Uma bomba chamada Quarteto Fantástico

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[alguns spoilers de leve à frente] Quando um grupo de executivos de Hollywood decide que precisa comprar novos helicópteros, chamam um diretor promissor e um elenco interessante para um filme de super-heróis porque olha quanto dinheiro Vingadores fez, então traz aí o Quarteto Fantástico, uns efeitos de computador e uma campanha de marketing agressiva e não precisa de muito mais para fazer um filme.

O grande mérito deste novo Fantastic Four é servir como contra argumento da famosa máxima “a prática leva à perfeição”: quarta tentativa de levar o primeiro grupo de heróis da Marvel para o cinema, é também a quarta expedição que leva Reed, Sue, Johnny e Ben vertiginosamente em direção ao fracasso, reunindo uma série de decisões tão preguiçosas e amadoras que é pertinente questionar se a maior parte dos 122 milhões de dólares gastos foi queimado em uma fogueira junto com o roteiro.

Porque a película nada mais é do que uma colagem de temas e conflitos já vistos um milhão de vezes e que, aqui, são usados justamente por já terem sido vistos um milhão de vezes, mesmo que a história não comporte eles. Por exemplo, a certa altura o Coisa diz a Reed “parei de acreditar nas suas mentiras há muito tempo“, e a cabeça do espectador quase entra em colapso tentando entender a ideia da frase porque Reed não havia dito nenhuma mentira e eles na verdade ficaram um tempão sem se ver, o que basicamente impossibilita tal diálogo. É apenas uma frase de efeito colocada para tentar definir algum drama, e Fantastic Four faz isso como se não houvesse amanhã: como Johnny é rebelde, alguém fala que ele não gosta de obedecer ordens, mesmo que isso nunca aconteça; Victor aceita voltar ao projeto por causa de Sue, mesmo que o interesse dele por ela nunca seja retomado; Sue fala a Johnny “parece que achou sua vocação” tipo oito segundos após ele entrar no projeto, mesmo que nunca fique clara a participação dele (“eu construo qualquer coisa“, diz o rapaz, em uma tentativa demente de justificar sua presença. Então por que não construiu um roteiro bom, jovem?).

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Isso tudo emite partículas radiativas que impedem o espectador de se aproximar das personagens ou da história, até porque cada uma daquelas pessoas é hiperbolicamente unidimensional (Johnny é rebelde, Sue é eticamente correta, Reed é inteligente, Victor é arrogante) ou sequer isso (a principal característica de Ben é minério). Não há uma preocupação em construir uma relação, em mostrar aquelas pessoas interagindo nas situações (há apenas um plano mostrando eles se divertindo. Dura cerca de um tweet), e o resultado é que a equipe reunida pelo Dr. Storm soa menos como um grupo e mais como um sistema de suporte a diálogos. Não ajuda também a história seguir em frente com soluções dissolvidas em preguiça –  Sue e o Dr. Storm simplesmente pipocaram na feira de ciências, sério? Reed ligou para Ben no meio da noite e chamou ele para se juntar à equipe na viagem, sério? Tudo que precisa para uma máquina interdimensional funcionar é ajuste no código-fonte, SÉRIO? -, mergulhando Fantastic Four em uma atmosfera de “vamos fazer tudo de qualquer jeito e azar” que torna o filme um amontoado de patetices, um conjunto de derrotas, uma história que soa quase ofensiva – não consigo imaginar o quão niilista precisa ser a visão da humanida de uma pessoa para que ela acredite que o público realmente aceitaria tais desenlaces.

Nem mesmo as cenas de ação conseguem desfibrilar a coisa, porque:
a) são incrivelmente mal coreografadas, sem nenhum momento realmente empolgante e com sérios problemas de mise-en-scène (vejam todas as vezes que Sue aterrisa com sua bolha invisível e chorem com a falsidade do movimento);
b) o CGI utilizado à exaustão é tão feio que provavelmente jamais tenterão fazer uma paródia 8-bits do filme, já que não teria muita diferença (vejam a cena de Reed na maca e chorem com involução da computação gráfica);
c) elas quase nunca acontecem (o que já nem sei se é algo ruim ou bom, mas chorem de qualquer jeito).

Em suma, Fantastic Four é uma coleção de clichês (“não podemos mudar o passado, mas podemos mudar o futuro“, diz Sue Storm, cujo nome de super-herói é Biscoito da Sorte), cenas óbvias (dá para antecipar a forma como Victor vai voltar a continentes de distância), conflitos abandonados à própria sorte (percebam que o perrengue entre Ben e Reed nunca é resolvido e fica por isso mesmo), frases de efeito e, e aqui é só uma hipótese que levantei agora, cigarros de crack distribuídos durante a produção. Qualquer resquício de lógica é varrido para baixo do tapete e o único momento realmente bom da película (quando Victor volta à Terra e sai aterrorizando o quartel) cria uma situação absurda no clímax (por que ele simplesmente não fez o quarteto explodir que nem fez com os soldados?). Aliás, o clímax é tão rápido e mal construído que parece algo feito na noite anterior e finalizado às duas da manhã quando os realizadores já estavam sem saco e não se importavam com nada e queriam realmente era dormir. A única reação provocada pelo momento mais dramático do filme é uma ou outra bufada de impaciência.

Josh Trank, o diretor, falou que a versão lançada é diferente da que ele tinha há um ano e que seria, de acordo com o rapaz, bem melhor (foram feitas refilmagens, o que sugere insatisfação do estúdio com o material). Pode ser verdade, pode ser que o sujeito esteja também tirando o dele da reta, mas uma coisa fica clara: quando o diretor diz que o resultado final não é bom, isso também diz muito sobre quão fantástico o filme realmente é.

1star

9 Comments

  • Erivelton Freitas
    Posted 09/08/2015 22:17 0Likes

    Concordo com tudo dito! Quarteto Fantástico é a prova de que não é porque um filme é da Marvel, ou carrega o peso da marca Marvel que ele é necessariamente bom!

  • Wallace Barroso
    Posted 10/08/2015 0:04 0Likes

    Marvel mas produzido pela Fox e não pelos estúdios Marvel. Agora me vem o medo do que vão fazer com os X-men e Deadpool.

  • Marcos
    Posted 10/08/2015 8:28 0Likes

    Parece que Deadpool não terá problema.

  • Magnosama
    Posted 10/08/2015 10:36 0Likes

    sou obrigado a concordar em tudo,

    o filme é mesmo uma boxta.

  • Erivelton Freitas
    Posted 10/08/2015 14:23 0Likes

    Homem-Formiga foi a prova que a Marvel Studios (Disney), nem sempre acerta, o filme passou se arrastando pela marca orçamentaria de US$ 130 Milhões no USA. Quase que fracassava.

    E outra, tem muito fanboy aí dizendo e achando que por ser um Grupo de Super-Heróis da Marvel, ou uma franquia da Marvel, o filme se torna automaticamente bom, mas aí está a prova de que não é por aí e nem nunca vai ser!

  • rebeca
    Posted 10/08/2015 14:55 0Likes

    disse tudo que pensei desse filme. Esse filme é tão ruim que eu dormi no cinema e meu namorado tb. Perdemos toda parte da luta. E eu dificilmente durmo assistindo um filme. Queria descobrir um buraco negro e jogar esse filme dentro

  • Vitor Ferreira
    Posted 11/08/2015 13:39 0Likes

    E não somente Homem Formiga Erivelton, Ultron pra mim é um ultraje. O filme é fraco, sem profundidade, so tem ação e efeitos especiais. Se querem trazer Guerra Civil as telas, que obscureçam um pouco suas tramas, para ai justificar e ser plausível seus filmes futuros. Meu medo é que Guerra Civil seja uma discussão boba entre heróis, “para que as crianças entendam”.

  • Bruno Alves de P. Xavier
    Posted 27/08/2015 11:36 0Likes

    Homem-Formiga é um bom filme e foi um acerto em alta aprovação da crítica (vide notas no Metacritic/ Rotten Tomatoes / IMDb) e público, só não conseguiu emplacar tanto na bilheteria, ficando na frente só de Incrível Hulk, entre os filmes da Marvel Studios. Talvez por não ser um herói tão conhecido, tenha contribuído.

  • Bruno Alves de P. Xavier
    Posted 27/08/2015 11:41 0Likes

    Cap America: Guerra Civil deve ser melhor pois quem vai dirigir são os Irmãos Russo, e deve seguir o tom de Cap America: Soldado Invernal (que é ótimo).

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