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Por: Redação Ligado em Série

Crítica | Sports Night e o início de Aaron Sorkin na TV

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Deve ser uma experiência curiosa assistir a Sports Night sem ter visto nada criado/escrito pelo Aaron Sorkin: a expectativa de se deparar com uma sitcom tradicional provavelmente resulta em alguma estranheza inicial, principalmente quando começa  famoso “walk and talk” (já que travellings são algo raro em sitcoms). Porque Sports Night, que foi transmitida entre 1998 e 2000 (foram só duas temporadas, pois não há beleza no mundo), traz um Sorkin ainda refinando suas características, mas já apresentando as técnicas que usaria mais tarde em The West Wing, Studio 60 From Sunset Strip e The Newsroom.

A série acompanha um programa de esportes chamado, vejam só, Sports Night, e os relacionamentos, amizades, conflitos, ética, talento e responsabilidades que vêm com essa lida televisiva. O show é apresentado pelos irreverentes Dan Rydell (Josh Charles, The Good Wife) e Casey McCall (Peter Krause, Six Feet Under), sendo que o segundo tem uma daquelas coreografias românticas “parece-que-vai-mas-nunca-vai” com Dana Whitaker (Felicity Huffman, Desperate Housewives), produtora do programa – auxiliada pela despachada Natalie Hurley (Sabrina Lloyd) e pela vítima romântica dela, Jeremy Goodwin (Joshua Malina, The West Wing). Enquanto isso, o simpático Isaac Jaffe (Robert Guillaume), produtor executivo, supervisiona a balbúrdia no melhor estilo “paizão acolhedor/implicante”.

Já no início do episódio piloto fica claro que, apesar do establishing shot acompanhado de música de elevador, Sports Night não seguirá o padrão das sitcoms: movimentos de câmera mais elaborado e diálogos rápidos entram em cena para apresentar as personagens junto com dois elementos bastante dramáticos (o divórcio e a exigência por mais audiência). Porque a série não é exatamente uma comédia bobinha. Existem diversas tramas que exigem mais desenvolvimento (sem deixar de lado o humor, é claro), e isso faz Sports Night chutar o pé da mesa acidentalmente com o dedinho quando tenta fazer cosplay de sitcom – as piadas ágeis de Sorkin, onde as punchlines logo são seguidas por diálogos ou cortes, não combinam com a trilha de risadas (em outras sitcoms, normalmente o ator/atriz faz uma pausa para esperar o fim das gargalhadas), e por vezes o retorno à comédia após uma cena mais emocional soa meio abrupto. Além disso, Sorkin estava claramente em processo de lapidação do seu estilo, e o resultado é que o “pingue-pongue” de diálogos eventualmente se torna apenas repetição de frases, sem que o tema seja desenvolvido.

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Isso acontece principalmente nos primeiros episódios. Conforme o trem vai andando, a série vai entrando nos trilhos e entrando no ritmo certo (a segunda temporada, por exemplo, foi exorcizada da faixa de risadas). Sports Night possui um humor genuinamente engraçado, sem apelar para bordões ou situações batidas, e se vale da criatividade de Sorkin para trabalhar com pertinência tanto grandes questões éticas (audiência x qualidade) quanto pequenas questões do dia-a-dia (gotas de água caindo na mesa dos apresentadores). Na maior parte do tempo, os diálogos são pequenos diamantes triturados e transformados em páginas de roteiro, fazendo com que a série jamais soe repetitiva ou batida. São roteiros bem elaborados – não só pela tabelinha verbal, mas também pela forma com que as tramas vão se encaixando para levantar questionamentos, e, muitas vezes, ensinar algo aos protagonistas. Com frequência Sports Night ganha aquela atmosfera agridoce que faz com que o espectador abra um buraco na tela para entrar e abraçar as personagens.

Aliás, que elenco. A química entre Josh Charles e Peter Krause é uma bola de neve de vitórias – a amizade entre Dan e Casey é muito bem estabelecida pela naturalidade das interações entre ambos, o que contribui em muito para o sucesso da série, já que eles aparecem juntos em boa parte dos episódios (e os dois ainda conseguem despejar carisma em cima de tudo e de todos). Felicity Huffman, por outro lado, consegue construir Dana de forma menos irreverente mas sem perder o humor, investindo na personalidade responsável e carinhosa dela, enquanto Sabrina Lloyd confere uma descarga de energia à cena sempre que Nathalie aparece em quadro e Robert Guillaume, alternando entre uma voz dura e expressões suaves, torna Isaac um mentor divertido, confiável e cativante. Só Joshua Malina que dá com os burros na água, interpretando Jeremy de forma automática e jamais conseguindo ser algo além de um sistema de suporte para diálogos.

Sports Night aproveita também para botar na mesa questões como a integridade jornalística, ética profissional, a fome voraz por audiência e outras reflexões pertinentes ao setor – em determinados momentos, parece quase um (ótimo e profissional) ensaio para The Newsroom (inclusive há um “estou encarregado da moral” em um episódio da segunda temporada que mais tarde seria dito por Will McAvoy). Tudo de forma bem orgânica na narrativa, que, salvo um que outro tropeço (principalmente no início), deslancha feito uma tarde com um pacote de Trakinas e Te Pego Lá Fora passando na televisão. É incrível como a série se mantém ágil e dinâmica, sempre conseguindo jogar na fogueira lenhas renovadas e não repetitivas tanto nas tramas relacionadas ao programa (um entrevistado que exige o corte final da entrevista, uma partida de tênis que dura tempo demais, uma transmissão durante a madrugada) como nas tramas mais pessoais (um infarto, um triângulo amoroso, o ego de Dan machucado ao não entrar em uma lista). Os episódios não parecem forçados ou linguiçamente enchidos; há a preocupação de que cada um deles possa existir de forma individual, o que mantém o nível de qualidade.

Com tudo isso, Sports Night se torna uma jornada absolutamente divertida, envolvente, criativa e agridoce – na pior das hipóteses, a curiosidade de ver um programa de TV em funcionamento (dramatizado, mas ok) vale a experiência. Por um daqueles motivos que a própria razão desconhece, a série durou apenas duas temporadas, entrando para aquela lista de evidências que provam que o mundo é um lugar feio. Mas, mesmo pequena e sem receber muita atenção, é um daqueles trabalhos televisivos marcantes, inconfundíveis, uma cachoeira de personalidade em um universo onde tudo que é seguro dá certo.

4star

5 respostas para “Crítica | Sports Night e o início de Aaron Sorkin na TV”

  1. Vinícius Silva disse:

    Não conhecia essa série. Tentei não ler o texto todo com medo de algum spoiler, mas suas impressões gerais me deixaram curioso para ver a série. Onde consigo assistir, você sabe?

  2. Cristiano Nobre disse:

    Achava que só eu tinha visto essa série. Além de tudo que foi dito soube fazer a junção de esportes e jornalismo de maneira muito fluida e agradável de se ver.

  3. Lucas Reino disse:

    Também quero saber.

  4. Delson disse:

    Bom saber que a série melhora depois dos primeiros episódios, eu assisti aos 2 primeiros e achei estranho justamente os diálogos caracteristicos do Sorkin junto com as risadas de fundo. Darei uma segunda chance pra série, ainda mais agora que o Sorkin ficará algum tempo longe da TV.

  5. Lucas Caetano disse:

    Tem ela completa no Kickass

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