FOTO: REPRODUçãO

Por: André Costa

Crítica | Roadies: a série que deveria ter dado certo (mas não deu)

Roadies - showtime

[com spoilers da 1ª temporada] Li em algum lugar que existem dois tipos de arte relevante: aquelas que mostram como o mundo é e aquelas que mostram como o mundo deveria ser – e que esse segundo tipo estava em falta. Roadies tinha tudo para preencher esse buraco, já que Cameron Crowe (criador, showrunner e roteirista e diretor de alguns episódios) enxerga o mundo através de um arco-íris e sabe como poucos construir sequências que regam os corações dos espectadores (principalmente graças à inigualável habilidade de combinar trilha musical e imagem). Infelizmente, apesar de Crowe, apesar do elenco e da proposta interessante, a série proporciona a mesma sensação que um caixa eletrônico zombeteiro que exibe a mensagem de “saldo insuficiente”: frustração.

Roadies acompanha um grupo de (como até a mente mais tacanha pode imaginar) roadies da fictícia Staton-House Band durante uma turnê pelos EUA. Com a chegada de um estereótipo ganancioso que só pensa em dinheiro e foi mandado pela gravadora para equilibrar as contas da banda, eles precisam resolver diversas situações enquanto romances, confusões e tensões sexuais se proliferam.

O grande problema da série é que ela se preocupa não em contar uma história, mas sim em passar mensagens edificantes. É a versão televisiva de um Instagram sobre empreendedorismo. Roadies abraça a Escola dos Diálogos Expositivos e abdica de desenvolver as situações (na maior parte do tempo), o que não deixa a história se aproximar das personagens – algo essencial em uma história sobre essas personagens. Assim, quando alguém fala que a equipe é “como uma família”, isso não é uma constatação, é uma informação que não havia sido revelada de forma alguma até então/não é corroborada depois (ou subvertida, o que funcionaria também). Ao contrário de séries como Entourage, que fortalecem a relação dos protagonistas ao mostrar eles juntos em grandes eventos e pequenas situações do dia a dia, Crowe e cia querem que todos os momentos sejam reveladores. Aposta só na mensagem e perde o impacto.

roadies kelly ann

Vamos a um exemplo gritante. O arco dramático percorrido por Reg é claríssimo: começa sendo o sujeito de negócios que só pensa em dinheiro e termina querendo salvar a banda e apaixonado por Kelly Ann. É um arco bonito, mas que não ressoa em nada do que acontece na temporada; Reg muda de pensamento porque essa é a mensagem a ser passada. A paixão dele por Kelly Ann, ou mesmo a simpatia pela banda, não são justificados ao longo dos dez episódios. Embora participe de certas situações (como a viagem para quebrar a maldição em The City Whose Name Must Not Be Spoken), ele não divide momentos com a garota – os dois simplesmente se olham e pronto, apaixonados; ele não aprende a valorizar a música  – simplesmente passa a defender a banda a partir do momento em que esta pode ser extinta. Reg muda totalmente de posição e, mesmo assim, no season finale ainda é a mesma personagem do episódio piloto (o que é uma pena, já que há uma rima linda entre o final desses dois episódios).

Roadies também parece ter sido contaminada pela mania que a Marvel e DC têm de sair dando piscadelas para seus fãs, trocando apenas as referências a quadrinhos por referências musicais. Para ser honesto, boa parte é ou divertida ou relevante para a trama (como a maldição), mas a impressão geral é a de que pequenas iscas de música são jogadas de vez em quando apenas para agradar o nicho dos espectadores musicais (como as músicas do dia ou Wesley tocando com artistas convidados). Afinal, fan service é algo que faz as pessoas se sentirem especiais.

Ainda assim, há vislumbres do diretor que fez todo mundo conhecer e gostar de Tiny Dancer com aquela pequena obra-prima chamada Quase Famosos. Quando não estão ocupados sendo expositivos, os diálogos muitas vezes se mostram genuinamente divertidos, engraçados (“eu não consigo desver aquele cabelo”) e interessantes. Ainda que funcione como uma crônica do dia a dia, circunstâncias como a da maldição (olha o episódio 4 aí de novo) tornam a temporada mais dinâmica, fortalecendo a música enquanto entidade e dando uma nova missão para os roadies. E a aparição de Janine, ainda que encerrada com o inexplicável clichê do “meu melhor amigo dormiu com o amor da minha vida”, traz um insight inspiradíssimo sobre o outro lado das “musas inspiradoras”.

roadies bill shelli

Além disso, Cameron Crowe sabe como poucos harmonizar (para usar uma expressão da moda) trilha e imagem, despejando algumas cenas bastante envolventes ao longo da temporada — menos pelo significado delas na trama e mais pela relação pontual entre o áudio e o vídeo, como se fossem um videoclipe (Kelly Ann correndo ao som de Given to Fly pra mim é um dos grandes momentos do ano). Há alguma magia negra nas ilhas de edição onde o diretor está presente, alguma hipersensibilidade que quase sempre encontra a canção ideal para aquele momento específico. E o elenco, com algumas variações para mais ou para menos (Reg, como sempre, é para menos), tem carisma para amenizar as coisas.

O que deixa mais triste ainda a preguiça de Roadies em realmente se aprofundar nas relações entre as personagens e nas motivações dramáticas. O season finale deixa bem claro que a proposta de Crowe é provocar uma daquelas catarses do tipo “a vida é linda e vale a pena”, e, como provou na cena do ônibus em Quase Famosos, o diretor é mais do que capaz de puxar o pino da granada nesse tipo de reação. Infelizmente, por melhores que algumas cenas sejam isoladas, elas não possuem o significado que a série precisa para disparar dopamina no sistema nervoso de todo mundo. Roadies tinha as características para virar um show que aborda com autenticidade conceitos como ingenuidade, simplicidade, otimismo, confiança, amor (em todos os níveis) e muitos outros. Mas não achou o tom certo.

2stars

Deixe uma resposta

ss