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Por: Davi Garcia

Na caçada a Escobar, Narcos volta impecável na 2ª temporada

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Walter White, Tony Soprano, Jax Teller… Já não é novidade o espaço que a TV deu nos últimos anos para protagonistas anti-heróicos carregados de contradições e divididos entre o amor por suas famílias e amigos e a capacidade de agir das formas mais absurdamente vis quando algo ou alguém ameaça o status quo de seus universos. Todos esses personagens citados, claro, tem muito em comum com Pablo Escobar, já que são tão capazes de se mostrarem humanos e até frágeis quanto de se transformarem em monstros irascíveis. Contudo, ao passo em que as tragédias vividas e provocadas por cada um deles se restringe ao plano da ficção, as do ex-chefão do cartel de Medellín são reais e por isso mesmo mais impressionantes e impactantes.

Depois de introduzir e mostrar, em sua já ótima primeira temporada, todo o contexto que proporcionou a origem e ascensão do homem que transformou para sempre o “negócio” do tráfico de drogas, Narcos retorna nesse segundo ano explorando a queda e os momentos finais de Escobar, morto aos 44 anos no dia seguinte ao de seu aniversário, num telhado de um bairro pobre de Medellín em dezembro de 1993. E se antes a série usou dez episódios para cobrir eventos de mais ou menos 15 anos (que culminavam com sua fuga da penitenciária La Catedral em julho de 1992), a segunda temporada usa o mesmo número de episódios para narrar os principais acontecimentos da derradeira caçada a Escobar que durou um período bem menor: 18 meses.

Essa diferença, por si só, já confere a um tom naturalmente mais urgente, tenso e intenso e que permeado por dramas e dilemas tangíveis; algumas atuações memoráveis (além de Wagner Moura, que está melhor que nunca, Paulina Gaitán que faz a esposa de Escobar e Pedro Pascal que faz o agente Javier Peña estão espetaculares) e várias excelentes sequências de ação (sério, são muitas e todas elas muito elaboradas e tecnicamente impecáveis), transformam o jogo de gato e rato entre as diversas partes envolvidas na busca por Escobar, num thriller ainda mais rico e relevante que aquele mostrado na temporada de estreia. Um dos motivos para que essa noção ganhe força, reside na maturação da abordagem narrativa e no refinamento da própria estrutura de cada um dos episódios.

É impossível negar que o que era bom – como o tom documental mesclado à óbvia necessidade de romantização de alguns eventos, por exemplo – ficou ainda melhor e o que antes podia incomodar – como a excessiva narração em off por vezes expositiva demais do agente Murphy (Boyd Holbrook) – foi corrigido e suavizado. Além disso, se a 1ª temporada destacava o aspecto fantástico do império construído por Escobar e de todo o glamour que o dinheiro das drogas e a influência política e midiática lhe rendiam, agora a série faz questão de mostrar, na derrocada de seu então protagonista, como tudo aquilo se perdeu rapidamente à medida em que El Patron vai sendo caçado, encurralado e isolado por ex-aliados, inimigos (como os do cartel de Cali) e forças oficiais/policiais que muitas vezes, aliás, se confundiam: o Bloco de Busca e Los Pepes.

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Esse último aspecto inclusive é outro ponto marcante dessa nova temporada de Narcos, já que ao mergulhar seus “mocinhos” ainda mais fundo na zona cinzenta que separava a legalidade do caminho mais fácil para que conseguissem chegar até Escobar, o agente Javier Peña (Pascal), por exemplo, se descobre claramente confrontado pelo dilema “dos males, escolho o menor” e navegando de forma bem mais perigosa (tanto física quanto moralmente) entre as diversas forças interessadas em derrubar o chefão do cartel de Medellín. Nesse contexto, quando a versão colombiana do Capitão Nascimento (o Coronel Carrillo) ressurge na trama da caçada com suas táticas pouco ortodoxas (como na cena envolvendo o interrogatório dos garotos informantes do cartel), fica evidente que o jogo atingira um nível bem mais duro e pesado cujo preço nem todos podiam pagar ou mesmo tinham estômago para suportar.

O desenvolvimento da trama e dos personagens, aliás, é evidenciado num dos melhores episódios da temporada (o quarto, dirigido por Andrés Baiz), que apresenta um autêntico plot twist finalizado de forma surpreendente e absolutamente chocante numa sequência de ação  de tirar o fôlego e carregada de tensão. Cenas como essa, aliás, também ajudam a corroborar o alto nível técnico da produção que, sem abrir mão da câmera na mão e dos registros quase inteiros em locações, entrega sequências empolgantes (como a da perseguição a pé em terraços e vielas que envolve Peña e um dos sicários de Escobar no quinto episódio) que exploram o ambiente claustrofóbico e opressivo dos lugares onde muitos daqueles eventos realmente aconteceram.

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Além disso, é curiosa a forma como os roteiristas de Narcos usaram alguns poucos flashbacks (como o da corrida de carros que Escobar adorava promover com seus homens) para provocar reflexões nostálgicas no narcoterrorista que agora, cada vez mais acuado, sente o peso de já não ter mais aquelas pessoas ao seu lado nem de poder fazer o que bem quisesse e como quisesse quando tinha tudo sob seu mais absoluto controle. Cercado por tudo aliás, vemos Escobar agindo de forma ainda mais vil ao promover ondas de ataques a seus inimigos, mas que quase sempre transformavam inocentes em vítimas. Essa noção fica clara no sétimo episódio quando, por exemplo, os diretores Gerardo Naranjo e Josef Kubota Wladyka constroem uma rima visual fortíssima em duas cenas distintas envolvendo dois pais (sendo Escobar um deles) encontrando o sapatinho de suas filhas.

E se ao se aproximar do arco final da temporada a série ainda permite a Escobar vislumbrar, em fuga, a vida simples, mas feliz e pacífica que poderia ter tido, também o faz para evidenciar ainda mais a natureza perversa daquele homem capaz de provocar vergonha no próprio pai. Some-se a isso ainda a capacidade que o roteiro teve de manter, principalmente nos episódios finais, o tom crítico, porém sutil, à atuação americana e das forças políticas na caçada, visto que a motivação destes não era acabar com o jogo do narcotráfico exatamente, mas sim de simplesmente tirar um perigoso player (Escobar), que burlava e incomodava o jogo.

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Assim, ainda que todos saibamos como Escobar encontrou seu fim, é digno de nota o esforço que o roteirista T.J. Brady e o diretor Andrés Baiz dedicaram para valorizar ao máximo os derradeiros eventos que culminariam com a morte do chefe do tráfico depois de 18 meses de fugas e perseguições e que, àquela altura, estava quase irreconhecível fisicamente (na reta final, Wagner Moura surge bem mais gordo e com uma atuação ainda mais minimalista amparada por gestos e reações que dizem mais que palavras). Não à toa, o esforço de toda a equipe é recompensado com uma sequência muito bem elaborada e montada no episódio dez e que antecede o desfecho do cerco a Pablo Escobar.

Melhor em muitos níveis que a primeira (que já era muito boa), essa segunda temporada de Narcos termina deixando no ar duas ideias bem fortes: a de que a série pode ter nos contado a história definitiva sobre quem foi Pablo Escobar e a de que mostrou apenas um dos muitos capítulos da violenta história do mundo do narcotráfico. Afinal, com o gancho criado na última cena envolvendo um determinado personagem, a provável (para não dizer inevitável) terceira temporada Narcos terá terreno fértil para explorar o que veio depois de Escobar, mostrando não apenas a ascensão do cartel de Cali, mas principalmente como seus líderes (os irmãos Orejuela) financiaram a campanha presidencial de Esnesto Samper (atual secretário geral da Unasul!), homem que substituiu César Gaviria e tornou as relações de poder entre as diversas forças internas e externas ainda mais nebulosas e ideais para que os novos barões da coca continuassem lucrando e transformando mais inocentes em novas vítimas.

Narcos é mais um grandiosíssimo acerto da Netflix e tanto a série quanto Moura merecerão todos os prêmios que forem indicados e receberem por esta excelente segunda temporada.

5stars


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5 respostas para “Na caçada a Escobar, Narcos volta impecável na 2ª temporada”

  1. Gleibson Acácio disse:

    ansioso!

  2. Marcio Formiga disse:

    Assino embaixo, excelente segunda temporada – que não consegui parar de ver do sábado pra domingo!

  3. Guilherme Henrique disse:

    Ao acabar Narcos, me pergunto pq a Netflix que ainda tem a obra prima House of Cards, perde tempo com bobagens como Demolidor e outros heróis Marvel, ao inves de investir nessas maravilhos obras originais.
    Unica coisa que nao gostei na temporada, foi a barba falsa e a barriga de travesseiro do Pablo no final, sempre me tirava da serie.

  4. Leonardo Damaso disse:

    acabei de ver tudo
    sou suspeito ao falar do PB
    e afirmo foi uma bela homenagem

  5. Leonardo Damaso disse:

    creio q isso e o fator $$
    eles tem q agradar vários assinantes
    de todo gênero, idade e intelecto

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