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Por: Redação Ligado em Série

O incrível cinema da “Boca do Lixo” de Magnífica 70!

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Representado na série Magnífica 70, que retorna com sua aguardada segunda temporada neste domingo, 2 de outubro às 22h na HBO, o cinema da Boca do Lixo pode parecer algo absurdo demais para a vida real. Mas ele existiu. E como existiu.


Confira os horários de exibição de Magnífica 70


Realizado no período que vai da década de 1960 até o fim dos anos 1980, o Cinema da Boca não foi um movimento cinematográfico como o Cinema Novo, por exemplo, embora este seja o senso comum devido às características muito marcantes dos filmes nacionais daquela época. Na verdade, quando falamos em “Cinema da Boca” deveríamos nos referir mais a um espaço geográfico e a um modo de produção do que a um gênero ou a um estilo de filme, como nós vemos na produção original da HBO Brasil.

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Onde fica a Boca?

Boca do Lixo” era o nome dado informalmente à região do bairro da Luz, na região central da capital São Paulo, onde, a partir da década de 1950, a prostituição e a criminalidade passaram a coexistir com o polo cinematográfico que ali já estava instalado desde os anos 1920. Abrigo de escritórios de estúdios e distribuidoras de filmes, além de fábricas de equipamentos e outros negócios do ramo, a Boca tinha como sua principal via a Rua do Triunfo, onde ficava localizado o famoso Bar Soberano, de onde surgiram muitas das ideias depois transformadas em filmes. A localização da Boca, perto das estações ferroviárias e da rodoviária, era economicamente atrativa o bastante para que empresários e executivos aceitassem dividir espaço com marginais.

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Mas também não havia muitas opções para onde ir, especialmente depois de 1954, com o fechamento da Vera Cruz, um dos principais estúdios que o Brasil já teve, localizado em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo. Precisando de emprego, muitos dos profissionais formados na Vera Cruz, e também em outros estúdios, migraram para a Boca. O noticiário policial contribuiu para aumentar a má fama da região, mas muitos diretores, produtores, atores e atrizes, além dos técnicos que lá trabalhavam afirmam que a convivência com as prostitutas, por exemplo, nunca foi tão problemática como se imagina. O preconceito também ajudava a encobrir o real estado das coisas e, no fim, os próprios profissionais de cinema da Boca passaram a ser vistos também como marginais.

Não à toa, a Boca do Lixo está associada ao que conhecemos como Cinema Marginal, um cinema feito na raça, com poucos recursos, mas muita criatividade e ousadia!

Ideologia e Censura

Quando o regime militar já se encontrava em um período de maior acirramento, com o decreto do AI-5 em 1968, a Boca se transformou em um reduto de resistência para cineastas que queriam trabalhar com liberdade, seguindo bem o espírito rebelde e revolucionário da contracultura. Porém, os chamados “boqueiros”, como o personagem Manolo de Magnífica 70, não se identificavam exatamente com a filosofia da turma do Cinema Novo, que surgiu em meados da década de 1950 em reação às dificuldades impostas pelos grandes estúdios aos jovens diretores.

rua-do-triunfoOzualdo Candeias/Divulgação

Embora, no fundo, ambos os grupos fizessem um cinema de enfrentamento à ditadura e de baixo orçamento, os objetivos de cada um eram distintos. Os cinemanovistas eram transgressores da linguagem cinematográfica e seus filmes tinham forte inclinação política e social. Os diretores marginais da Boca do Lixo também queriam falar das mazelas do país e eram experimentais, mas o modo como se expressavam era por meio de filmes de ação, aventura, terror, comédia, faroeste, policial etc. É aí que eles se mostravam mais criativos, já que precisavam driblar a forte censura a que eram submetidos pelo governo.

Com o passar do tempo e a popularização do Cinema da Boca na década de 1970, o teor político dos filmes foi dando cada vez mais lugar ao erotismo, pois os produtores perceberam que nudez e sexo eram os elementos em comum entre seus filmes de maior bilheteria.

Criadores e criaturas

Entre os vários nomes associados ao cinema da Boca do Lixo, alguns sem dúvida alguma se destacam. Se na ficção temos Vicente e Manolo, na vida real David Cardoso e Tony Vieira, por exemplo, não só eram atores, como também produtores e diretores. Cláudio Cunha, Alfredo Sternheim e Ozualdo Candeias também foram boqueiros icônicos, assim como Geraldo Vietri, Ody Fraga, Jean Garrett, Adriano Stuart, Antônio Meliande, Carlos Coimbra, Fauze Mansur, José Miziara e Osvaldo de Oliveira.

Porém, poucos cineastas transcenderam a Boca e ganharam respeito dos críticos como “autores”, muito em função de exercerem um estilo mais regular ou simplesmente por fazerem filmes de qualidade acima da média. É o caso de José Mojica Marins (o “Zé do Caixão”), Carlos Reinchenbach, Walter Hugo Khouri, Luís Sérgio Person e Rogério Sganzerla.

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Entre os produtores, aqueles que também faziam questão de colocar seus nomes nos cartazes já que eram os grandes responsáveis por botar dinheiro nos filmes, destacaram-se figuras como Oswaldo Massaini (criador da Cinedistri, o principal estúdio da Boca), Antônio Polo Galante e Alfredo Palácios (ambos fundadores da Servicine, outra grande empresa cinematográfica surgida na Boca), e o espanhol Miguel Augusto Cervantes.

Mas o Cinema da Boca nada seria sem suas atrizes, ou melhor, suas deusas: Helena Ramos, Nicole Puzzi, Aldine Müller, Neide Ribeiro, Claudete Joubert, Matilde Mastrangi, Zilda Mayo, Débora Muniz, Vera Fischer, Sandra Bréa… O machismo pedia por nudez gratuita e elas encaravam aquilo como trabalho – feito com muito profissionalismo, diga-se, contrariando o cenário que mentes poluídas podem construir. Essas atrizes são representadas pela personagem Dora Dumar (Simone Spoladore), na produção da HBO.

As mulheres eram as verdadeiras estrelas da Boca, muito mais que os homens, embora atores como Nuno Leal Maia, Tarcísio Meira, Jofre Soares e John Herbert tenham sido presença importante nos filmes da época e, a partir dali, despontado para a carreira televisa.

O estigma das pornochanchadas

doradumarNa década de 1970, a produção cinematográfica na Boca estava a todo vapor e respondia por cerca da metade dos filmes realizados no Brasil (e vale lembrar que naquela época não existiam leis de incentivo como hoje). Foi naquela época que o erotismo se tornou o escape encontrado pelos cineastas para se posicionarem contra o conservadorismo e a repressão de maneira alegórica, mas, principalmente, para atenderem às pressões dos investidores que, afinal, queriam retorno financeiro apelando para o gosto de uma plateia majoritariamente formada por homens.

O retorno era praticamente certo, com cinemas lotados a despeito da ojeriza da crítica e, claro, dos censores, que se viam obrigados a deixar passar um certo número de cenas de nudez, por exemplo, senão simplesmente não haveria filmes para exibir. O sucesso dessas produções, que geralmente usavam títulos dos mais apelativos (e por isso mesmo engraçados, como é o caso do ficcional “A Devassa da Estudante” visto na série da HBO), era tamanho que algumas ficavam não meses, mas anos em cartaz, algo inimaginável hoje em dia.

A carga erótica associada às comédias brasileiras dos anos 1970 gerou o termo “pornochanchada”, frequentemente associado às produções da Boca (mas não só da Boca, também aos “filmes quentes” cariocas), o que, ao bem da verdade, acabou estigmatizando o cinema brasileiro como um todo. Quem nunca ouviu (ou disse) que “filme brasileiro só tem sacanagem”? Pois é. Essa má fama começou naquela época e se consolidou quando cenas de sexo explícito passaram a ser incorporadas aos filmes da Boca, já na década de 1980, numa tentativa de competir com a forte entrada de filmes pornográficos estrangeiros nas salas de exibição do país.

Declínio e redescoberta

A vulgaridade com que a maioria das pessoas passou a enxergar o cinema brasileiro após os anos 1980 graças à entrada da pornografia impediu que muitos filmes anteriores a essa fase recebessem o devido reconhecimento com o passar dos anos. Sem falar que as próprias pornochanchadas eclipsaram os demais gêneros de filmes realizados na Boca do Lixo.

A recessão econômica e o fechamento da Embrafilme (empresa estatal que produziu e distribuiu nossos filmes entre 1969 e 1990, também retratada em Magnífica 70) acabaram por enterrar de vez a produção cinematográfica local e muitos dos boqueiros foram relegados ao esquecimento com o passar dos anos. A própria região deixou de ser um polo cinematográfico para se tornar uma área comercial. Fora que a criminalidade aumentou, chegando inclusive a render o apelido “Cracolândia”.

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Somente nos anos 2000, com a popularização da TV por assinatura e da internet, filmes daquela época passaram a ser redescobertos pela crítica e pelo público. O Cinema da Boca se tornou objeto de documentários, cursos e retrospectivas por todo o país, chegando até mesmo a ser considerado “cult”, e não mais baixo ou grosseiro.

Um dos resultados mais interessantes desse fenômeno é a própria Magnífica 70, que resgata o imaginário da época e o repagina com um olhar contemporâneo. Você pode acompanhar a 2ª temporada todo domingo às 22h na HBO.

Se você perdeu a 1ª temporada ou quer reassistir, todos os episódios estão disponíveis na HBO GO, que recentemente foi atualizada para sua nova versão mais leve e rápida. O piloto da série, inclusive, está disponível sem custo adicional para não-assinantes por tempo limitado.

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