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Por: Davi Garcia

Crítica | Westworld 1×08: Trace Decay

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Se o conceito de identidade dada à um ser artificial é digno de nota, a ideia de que uma máquina com capacidade cognitiva possa ser usada para programar outras deveria ser absolutamente assustadora. Robert Ford, contudo, só vê fascínio ao testemunhar Bernard, sua criação, experimentando uma miríade de sentimentos como confusão, choque, frustração, e raiva (todas absolutamente visíveis numa fração de segundos por conta da atuação soberba de Jeffrey Wright na cena) à medida em que ele finalmente percebe qual é sua real natureza.

E se por um lado o personagem de Anthony Hopkins é cruel o bastante para não só admitir que dá pouco valor à vida de quem quer que seja (e ele cita uma passagem do Frankenstein de Mary Shelley ao fazê-lo), mas também para explicitar que sua admiração pela beleza de ver uma inteligência artificial manifestando emoções só não é maior que sua adoração pela capacidade de controlá-la, por outro ele é suficientemente pragmático para, numa conversa de forte cunho existencial com Bernard, deixar claro que no fundo pode até sentir inveja de, como humano que é, não poder se “desligar” das dores da mesma forma que os anfitriões.

Nesse sentido, enquanto Ford parece buscar se distanciar do que o faz humano, os anfitriões por sua vez enxergam na dor (e principalmente na dor oriunda de uma perda) aquilo que lhes aproxima do que é mais humano. E justamente por isso, não é por acaso que vimos, em momentos distintos ao longo desses oito episódios, tanto Dolores, quanto Bernard  e Maeve falando que “a dor é tudo que lhes restava de uma lembrança”. O que nos leva, aliás, à própria ideia por trás do título desse oitavo episódio.

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Na psicologia, Trace Decay é uma teoria que tenta explicar que influências externas (como o tempo, claro, mas não só ele) podem fazer com que percamos uma memória qualquer de forma paulatina, natural e passiva. Em termos práticos é como se os vestígios no sistema nervoso deixados por uma experiência que vivemos se perdessem ou se apagassem. E nesse contexto, ao passo em que Felix diz a Maeve que os humanos sempre revivem suas lembranças de forma vaga, os anfitriões, contudo – talvez por terem sido programados para “esquecer” a memória recente – quando o fazem, graças a um gatilho de uma dor específica, experimentam-na sempre de uma maneira bem vívida e intensa.

Não à toa, aliás, o flashback que mostrou Maeve sendo restaurada por Ford e Bernard logo após o ataque cometido pelo Homem de Preto a ela, terminava justamente com a anfitriã se “suicidando” como se aquela fosse sua tentativa final de não perder a memória que tinha de sua filha. E se a Maeve do presente é hoje praticamente uma mistura de Neo da Matrix com um mestre jedi cheia de mind tricks capazes de incentivar ações e comportamentos a outros anfitriões como vimos naquela impressionante sequência de tiroteio (que a propósito teve como trilha a versão de Back to Black de Amy Winehouse cujo refrão diz “eu já morri uma centena de vezes”), o que vimos dos eventos envolvendo Dolores nesse episódio parece não só apontar que seu (novo?) despertar está próximo de ocorrer, mas também revelar, de forma clara, o que está acontecendo e o que já aconteceu com ela antes.

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Afinal, a impressão que surge com a chegada de Dolores à região da vila da igreja  – que por sinal é o mesmo lugar das lembranças de Teddy com o tiroteio envolvendo o ainda misterioso Wyatt – e toda aquela confusão que ela experimenta (“onde e quando estamos? Isso é agora?”, pergunta ela) é que absolutamente tudo que ela viveu ao lado de William ocorreu no passado e que agora, no presente, ela estaria tão somente revivendo e refazendo, sozinha, toda aquela trajetória respondendo ao chamado da voz (de Arnold, provavelmente) que ouve desde o primeiro episódio. Dessa forma, se a revelação seguir esta lógica, teríamos então não somente a resposta da pergunta:  “onde foi parar a Dolores afinal depois daquele último ataque que ela sofreu na fazenda ainda no terceiro episódio?” como também a certeza de que sua trajetória ali não deve terminar bem (considerando que ela se viu tanto caída à beira do rio quanto prestes a dar um tiro na própria cabeça) indicando, portanto, que seja lá o que o Arnold tenha feito para despertar a consciência nos anfitriões (ou pelo menos dela), obviamente não deu certo lá atrás.

E sob essa perspectiva, chegamos à parte que diz respeito à trajetória do homem de preto na história e as dicas que parecem gritar a confirmação de que sim, ele é William trinta anos mais velho. Primeiro quando reconhece aquela anfitriã loira (“achei que já tivessem te aposentado”, diz ele) que é a mesma que recepciona William no segundo episódio. E segundo quando ele dá, falando com Teddy, alguns detalhes sobre sua vida fora do parque mencionando quão poderoso era (“sou um titã da indústria”) e que foi casado por trinta anos com uma mulher que acabou se matando por não mais suportar conviver com alguém que vivia sob uma fachada irreal que escondia totalmente quem ele era de verdade.

Assim, se foi depois disso e no parque que o homem de preto encontrou um propósito ao descobrir o jogo secreto do Arnold, especular que – de novo, considerando que William e o HdP são a mesma pessoa – a experiência do passado com Dolores que lhe mostrou um vislumbre de uma sentiência que ele julgava não existir e que de alguma forma acabou interrompida, poderia ser o combustível que alimentou seu desejo de revisitar o parque por tantos anos afim de poder reviver tudo aquilo e reencontrar a Dolores que um dia conhecera mesmo que para isso fosse necessário correr riscos físicos reais além de provocar nela, dores marcantes o bastante para que ela pudesse se lembrar…

Confuso? Um pouco talvez, mas tem sido um prazer imenso acompanhar e imaginar como as peças no tabuleiro do jogo dessa série vão se movimentar a seguir, não é mesmo?

5stars

7 respostas para “Crítica | Westworld 1×08: Trace Decay”

  1. Wagner disse:

    Serie espetacular! Acho que fazia tempo que não ficava ansioso pelo episódio seguinte de uma série, como tenho ficado pelos de Westworld!

  2. Volnei Ferreira disse:

    “reviver tudo aquilo e reencontrar a Dolores”. Mas ele não encontrou ela no 1º episódio, no qual o Teddy acabou de lembar?

  3. markueca disse:

    Caraca! Falei do efeito “Clube da Luta” da Dolores (dela estar sozinha revivendo nos lugares o que viveu com William) com os caras do serviço mas ninguém entendeu! rsrsrs Bom saber que a minha idéia não era absurda!

  4. Otavio Larsen disse:

    Me chamou atenção, no despertar de Maeve, quando ela ataca a nova Clementine.
    Me pareceu que enquanto o “Homem de Preto” narra o ataque a ela – um ano antes segundo ele – ela vai sentindo os efeitos. Logo no inicio ela sente a facada no abdomem, e quando ele narra o revide dela, parece que ela ataca a nova Clementine, em um momento que ela não entende.
    Parece que o despertar dela não está tão autonomo.

  5. Flávio Souza disse:

    Tenho uma teoria : Aquela cena do Homem de Preto matando a filha da Maeve na verdade aconteceu quando ele era jovem !!! Podem esperar esperar que a cena será trocada !!!!

  6. Leonardo Damaso disse:

    amigos vejo domingo e na segunda
    e um Show singular

  7. klaus disse:

    Doidera!

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