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Por: Bruno Carvalho

Crítica | A Maldição da Mansão Bly

[Parte 1: sem spoilers] A Maldição da Residência Hill trouxe um certo frescor ao gênero de terror serializado, outrora “dominado” pela irregular série criada por Ryan Murphy (American Horror Story). Mas é com A Maldição da Mansão Bly que o criador Mike Flanagan e seus roteiristas mostraram que esta antologia de histórias sobre propriedades “mal-assombradas” merece total atenção do espectador, seja ele fã do gênero ou não.

Menos “assustadora” que a antecessora, a Mansão Bly compensa isso com uma história intrincada, rica, repleta de elipses narrativas interessantes (mais sobre isso após o aviso de spoilers), inusitadas e até mesmo algumas reviravoltas inesperadas.

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A trama tem início quando a au pair Dani (Victoria Pedretti) é contratada por Henry, responsável pela família Wingrave, para cuidar e mentorar um casal de irmãos em uma mansão localizada no interior da Inglaterra, em Bly. Lá chegando, ela começa a vivenciar uma série de ocorrências estranhas envolvendo, em especial, os órfãos Flora (Amelie Bea Smith) e Miles (Benjamin Ainsworth) – que desde já merecem reconhecimentos na próxima temporada de premiações.

Aos poucos, as estranhas ocorrências na mansão começam a intensificar quando Dani descobre um pouco mais sobre mortes ocorridas e que envolvem não apenas os pais das crianças, como também a au pair anterior e o aparente sumiço de um associado golpista da família, Peter, que retorna para atormentá-los. Henry, o tio, não retorna à propriedade por nada.

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Estruturalmente, Mansão Bly não possui uma narrativa regular, propositalmente optando por introduzir flashbacks do nada, alguns focados em seus ótimos personagens, que incluem ainda o pacato cozinheiro Owen, a governanta Hannah e a jardineira Jamie. Isso faz com que o espectador permaneça “no escuro” tal qual Dani, sem conseguir juntar todas as peças desse jogo até o seu final.

Fotografado sempre em paletas mais sombrias, como Residência Hill, o trama segue com a alta qualidade técnica apresentada na antologia, mas sem querer “emular” a anterior. Aliás, é notório como Mansão Bly é tematicamente diferente da temporada antecessora e cria seu universo assustador de forma cadenciada até chegar em seu excelente clímax.

Atenção: spoilers na Parte 2 abaixo. Sugiro a leitura somente após terminarem de assistir à temporada completa.

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[Parte 2: com spoilers] Mas não dá para discutir a fundo A Maldição da Mansão Bly sem adentrar em sua temática e nas revelações que a temporada aos poucos vai trazendo. Em Bly, os “fantasmas” estão sim ligados ao sofrimento, mas a “maldição” se manifesta de uma forma bastante curiosa: em loops temporais nas memórias daqueles que estão com suas vidas “ancoradas” na propriedade, especialmente a governanta e as crianças que mais passaram tempo lá.

Assim, tanto os vivos quanto os mortos se vêm constantemente “absortos” em memórias que variam de boas a ruins, e cabe ao espectador atenção para compreender quando isso está ocorrendo, já que a série faz questão de esconder isso no começo, revelando o que de fato está acontecendo bem aos poucos. Aliás, é somente no episódio centrado em Hannah Grose (maravilhosamente interpretada pela atriz T’Nia Miller), que conseguimos compreender o quão terrível é essa maldição.

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Mansão Bly constantemente recompensa nossa atenção devota quando traz as revelações. Uma delas, que pode ser notada com mais facilidade, é o fato de jamais vermos Hannah comendo ou bebendo algo (e quem viu, sabe o que estou falando, por isso não vou escrever aqui, mesmo com o aviso de spoilers).

Como disse, ainda que com menos sustos que o capítulo anterior, este drama constrói um quebra-cabeças terrivelmente assustador, indicando que a mansão acaba prendendo todos que ali vivem ou já viveram em suas piores memórias, fazendo com que todos vivam um pesadelo sem fim. Seus episódios finais discutem ainda o egoísmo que invariavelmente rege o ser-humano e que pode trazer consequências irreparáveis (“eu, você e nós”).

Entregando uma resolução perfeita para todos os mistérios levantados, A Maldição da Mansão Bly é um trunfo narrativo do gênero e que evidencia a capacidade de reinvenção desta já proeminente franquia.

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