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Por: Bruno Carvalho

Crítica | Borat retorna mais ácido e insano em sequência da Amazon

No início dos anos 2000, Borat Sagdiev (Sacha Baron Cohen) era apenas um personagem secundário na série da HBO intitulada Da Ali G Show, que durou 4 temporadas e tinha como personagem principal um rapper britânico branco que se achava “da quebrada”. Seis anos depois, o “casaq” mais famoso do mundo tomou as telas de cinema com o ótimo Borat: Cultural Learnings of America for Make Benefit Glorious Nation of Kazakhstan. No longa dirigido pelo mestre Larry Charles (Seinfeld) conduziu o correspondente de imprensa do Casaquistão em sua viagem “cultural” pelos EUA onde, por meio de sua característica ingenuidade e espontaneidade, extraía de pessoas comuns situações embaraçosas e que evidenciavam o preconceito, a misoginia, homofobia e outras características patentes do norte-americano “médio”.

14 anos depois, Cohen revisita o seu personagem na excelente sequência Borat Subsequent Moviefilm: Delivery of Prodigious Bribe to American Regime for make Benefit Once Glorious Nation of Kazakhstan, mas agora com um tom ainda mais ácido e político. Nesta iteração, Borat recebe a missão do presidente de seu país para voltar aos EUA e levar um presente à alta cúpula do “regime” Trump, como uma forma a se redimir da vergonha que seu primeiro longa causou ao país e evitar a pena de morte.

Esta, claro, é a desculpa perfeita para que Cohen traga uma análise precisa e incômoda de tudo que há de errado com a ultra-direita norte-americana (e presente em diversos países como o Brasil, cujo mandatário é mencionado de forma desonrosa logo no início), em doses ainda mais cavalares do que aquelas encontradas no filme original. O desafio, porém, agora é ainda maior: como o personagem ficou mundialmente conhecido, o roteiro precisou incorporar esse obstáculo para fazer com que Borat seja ocasionalmente obrigado a se “disfarçar” de uma terceira pessoa, evidenciando ainda mais a genialidade da composição do ator, que interpreta um personagem interpretando outro.

A trama, desta vez, tem menos momentos de improviso e um roteiro mais conciso: se no original a “missão” jornalística fora desviada pelo súbito interesse do personagem-título em conhecer a atriz Pamela Anderson, aqui seu objetivo é o de “preparar” sua recém-descoberta filha Tutar (a estreante Maria Bakalova) – de apenas 15 anos! – como um “presente” para o vice-presidente Mike Pence, pois ele descobre que todos no círculo de “McDonald Trump” curte mulheres mais novas.

Borat 2 choca o espectador com a realidade desse sórdido submundo político, mas também com o comentário social preciso por meio de sequências que beiram (ou em tese deveriam beirar) o absurdo, especialmente aquelas envolvendo sua filha e um médico, um pastor “pró-vida” e uma influenciadora “sugar baby” que dá dicas de como a adolescente pode atrair “homens mais velhos”. Há, ainda, um momento em especial no filme envolvendo um político da mais alta patente na administração Trump que, no mínimo, deveria trazer consequências políticas (e policiais) reais para o envolvido.

Não bastasse isso, o filme ainda traz a proeza de incorporar a pandemia de COVID-19 para discutir temas como fake news, liberação de armas e, é claro, a iminente eleição presidencial norte-americana, escancarando – sempre por meio de interações reais – o pensamento tacanho, limitado e ideológico dos votantes de Trump e sua corja.

Borat 2 vai ainda além e constrói de forma brilhante e inadvertida, uma reviravolta na trama que traz um paralelo direto com o atual momento do mundo, além de “redimir” o protagonista que acaba aprendendo que judeus “não são malignos” (Sacha é judeu e por isso brinca com o assunto com autoridade e propriedade) e que as mulheres possuem direitos iguais, num arco comovente envolvendo o relacionamento entre ele e a filha.

Sem perdoar nada e ninguém, o filme desfere golpes e mais golpes a nomes como Jeffrey Epstein, Kevin Spacey, conspiradores QAnon, terraplanistas e os já clássicos white trashes do meio-oeste americano.

Após a impagável série do Showtime Who is America?, Sacha Baron Cohen atinge com este magnífico Borat 2 um status distinto não apenas no humor, mas em todo o gênero de sátira cinematográfica da qual passa a ser um dos seus maiores e mais expoentes nomes.

Borat: Subsequent Moviefilm estreia nesta sexta, 23 de outubro, no Amazon Prime Video.

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