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Por: Bruno Carvalho

The Crown: Diana protagoniza temporada que marca o declínio moral da Coroa

A década de 1980 foi indubitavelmente um dos períodos mais conturbados do reinado da Rainha Elizabeth II (Olivia Colman, Fleabag) graças, principalmente, ao protagonismo de duas grandes mulheres com características, comportamentos e popularidades diametralmente opostos. Em um, a primeira-ministra Margaret Tatcher (vivida com brilhantismo ímpar por Gillian Anderson, Sex Education) e, em outro, a ex-professora Diana (interpretada à perfeição por Emma Corin, Pennyworth), que viria a se casar com o príncipe Charles e ter sua vida mudada para sempre.

É nesse contexto que a 4ª temporada de The Crown tem início, com a Família Real em segundo plano tanto no poder quanto nos holofotes, já que o interesse popular na Princesa de Gales e os momentos de triunfo do Tatcherismo certamente tomaram a atenção do ensemble decorativo.

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Em 10 excelentes episódios, esta nova leva continua balanceando muito bem todos os assuntos que aborda, assim como os fatos marcantes do período em que retrata (da morte do Lord Mountbatten pelo Exército Republicano Irlandês à renúncia de uma acuada da Dama de Ferro), graças à precisão histórica do criador e roteirista-chefe Peter Morgan, um dos biógrafos mais celebrados e experientes sobre a Coroa.

Mas a história mais proeminente, claro, é o conturbado casamento de Charles e Diana, o que acaba pintando o sucessor ao trono como a figura excêntrica e repugnante que foi, especialmente em seu tratamento indiferente à esposa, a notória paixão com Camilla Parker-Bowles (hoje sua esposa) e, claro, a inveja que a ascensão desta nova figura real (moderna e cativante) causou e ofuscou completamente a pompa e o tradicionalismo da Família Real, que cai em decadência como seu próprio palácio (note os momentos em que o invasor de Buckingham fala com desdém sobre a pintura e quando o rato rapidamente cruza a tela em uma montagem).

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É óbvio que o polêmico livro Diana: Sua Verdadeira História foi indispensável para que o roteiro tomasse forma, já que foi esta a obra que – escrita em segredo com a colaboração da própria Princesa no fim de seu casamento – expôs ao mundo moderno, sem meias palavras, a sordidez que é fazer parte desse enorme e milenar teatro de sucessões.

Não que The Crown não tenha já sugestionado o comportamento vil, frio e cruel dos monarcas nas temporadas anteriores, mas aqui a série deixa bem claro o que eles são capazes, inclusive a internação compulsória de duas primas deficientes da Rainha em um sanatório, para que não ficasse evidente um eventual problema na “linhagem” da Regente.

Tecnicamente, a produção continua impecável e mostrando porque é continuamente a série mais cara do mundo, já que não somente a recriação precisa de época, cenários e figurinos, como também o apuro visual (tanto em efeitos como em fotografia), fazem desta uma obra-de arte desta geração televisiva. Ainda assim, confesso que não entendi o motivo de simplesmente ignorarem a retratação do principal evento da temporada (o Casamento Real) e a omissão de pontos importantes, como a tentativa de homicídio sofrida por Margaret Tatcher.

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Como complemento e até mesmo para que se verifique a precisão histórica de The Crown, recomendo que logo após assistirem à temporada vejam o documentário Diana: Suas Últimas Palavras (também disponível na Netflix), que traz as fitas de áudio gravadas pela própria Princesa e que serviram para expor tudo o que sofreu, física e psicologicamente, no breve tempo em que foi a Princesa do Povo.

Interrompendo sua narrativa no início dos anos 90, The Crown se prepara para entregar seu terceiro e último ato com as temporadas 5 e 6, que terá mais uma interessante troca de elenco para retratar os inevitáveis anos finais de Elizabeth e as tragédias que sabemos que virão.

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