FOTO: REPRODUçãO

Por: André Costa

Crítica: Trapaça, de David O. Russell

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O casal de trapaceiros Irv e Sidney se vê em uma situação periclitante quando é trapaceado por um agente do FBI – que, por sua vez, os convoca para trapacear e prender outros trapaceiros, meio que criando uma cadeia de trapaceação total. Enquanto isso, Rosalyn, esposa de Irv, aparece sempre que um obstáculo precisa ser colocado na história.

American Hustle (Trapaça) mostra que David O. Russell não gosta de se acomodar: após abordar o mundo do boxe amador (The Fighter) e acompanhar o ensandecido relacionamento entre duas pessoas psicologicamente perturbadas (Silver Linnings Playbook), o cineasta mais uma vez puxou seu carro para um lado diferente ao contar essa história de vigaristas, repleta de trapaças e canções dos anos 70 – e, tal qual aconteceu com os filmes anteriores, a película é mais sobre as personagens e menos sobre a trama em si. Infelizmente, Russell não conseguiu manter o nível e a produção acabou sendo uma ex-BBB: visual marcante, conteúdo decepcionante.

A estética que a película vai seguir, aliás, fica clara já no início, quando os logos das produtoras surgem emulando aquele design colorido e exagerado da década de 70 (uma atitude cada vez mais comum, mas sempre legal). A partir daí, American Hustle mergulha sem piedade naquela época de exageros, investindo em figurinos com cores peculiares (como o terno azul de Carmine) e cenários repletos daqueles papéis de parede com padrões esquisitos e móveis cujo design serve  – além disso, sobra espaço para simbolismos espertos aqui e ali, como a gravata torta de Richie (que indica a tendência dele a não se adequar às normas), a casa apertada de Irv e Rosaly (que parece um pouco claustrofóbica) e o cabelo encaracolado de Sidney quando ela e Irv brigam (ilustrando como a moça “passou para o lado” de Richie).

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Russell filma tudo puxando para tons de sépia, o que, junto com a fotografia levemente dessaturada, ajuda a dar aquela aparência vintage do tipo “isso é antigo mas não tão antigo assim” (uma abordagem que realça também os muitos elementos marrons e beges da direção de arte, criando uma atmosfera do tipo “época de ouro”). O diretor também gosta de usar planos fechados e se manter perto das personagens (bem perto. Em determinado momento, parece que o corte aconteceu milésimos de segundos antes de Richie dar de cara na câmera), apostando em enquadramentos e movimentos de câmera elegantes que remetem à época (apesar de alguns travellings de aproximação soarem deslocados, como se a função deles fosse apenas mostrar como é legal o uso da steady-cam). Tudo isso polvilhado com uma montagem rápida, que zomba da linearidade ao encadear momentos atuais e flashbacks e resumir algumas histórias em uma sequência de planos curtos, dando uma dinâmica ainda maior à narração em off – inclusive, um dos momentos mais legais do filme é quando a narração de Irv e Sidney se intercala, surgindo quase como uma conversa dizendo o que levou um a se apaixonar pelo outro enquanto vemos um flashback de quando se conheceram.

O grande problema aqui é que, para um filme de personagens, American Hustle não se preocupa em tornar todas elas interessantes. Irv e Sidney ainda são mais complexos e multifacetados, lidando com diferentes conflitos e sentimentos ao longo da narrativa, mas mesmo as cenas em que se tornam mais tridimensionais têm um pé na lama: a preocupação de Sidney com Rosalyn, enxergando ela como uma pessoa (durante a festa), jamais ganha sequência; e o remorso de Irv pelo destino de Carmine é extremamente rápido e forçado, gerando uma situação absurda onde o político grita que o trapaceiro de topete falso estragou sua vida enquanto a esposa e seus um milhão de filhos observam, faltando só dizer que o dinheiro seria usado para a operação do cachorrinho deles que sofre de câncer para a coisa atingir níveis novelescos. Apesar disso, no geral ambos se mostram divertidos e cativantes, seja pela inteligência de Irv (que conhece o jogo e, por isso, é sempre interessante ver a forma com que aborda cada oportunidade e obstáculo), seja pelo misto de esperança, decepção e talento de Sidney (afinal, é apaixonada por um homem casado e vive uma mentira).

Já Rosalyn surge apenas como a esposa amargurada porque não é suficientemente amada e mimimi, servindo também como uma espécie de MacGuffin para evitar que Irv e Sidney possam dar no pé e para que a máfia descubra que a vaca tá indo pro brejo. E Richie se mostra um sujeito intenso e ansioso e um pouco… não, é basicamente isso, intenso e ansioso. O roteiro também indica que algumas passagens foram escritas sob influência de álcool, como o desnecessário flashback mostrando como Irv se tornou trapaceiro (algo que não influencia na motivação dele durante o filme) ou a cena ao som de Live and Let Die. E até dá para entender a função dela ali, mostrar que Rosalyn está se desprendendo do marido, mas a personagem foi tão mal explorada – e a cena é um erro tão grande em termos de tom e atuação – que seria melhor para o mundo caso tivesse ido para na pasta de “cenas deletadas para adicionar ao DVD”. O bom é que existem também grandes sequências (a supracitada cena da conversa, a reunião com os mafiosos – e uma participação muito especial -, a montagem paralela nas festas em que Irv e Sidney participam), alguns diálogos inspirados (“Nunca se deve contar a verdade a uma mulher“) e até mesmo situações divertidas ao extremo (Richie bagunçando o cabelo de Irv).

Christian Bale;Amy Adams;Bradley Cooper

Mas American Hustle cresce mesmo é na atuação de seus protagonistas: gestual, expressivo, pronunciando suas falas com desenvoltura, barrigudo e completamente em chamas, Christian Bale torna Irv uma figura envolvente, carismática, ilustrando também a segurança do sujeito e a divisão entre sua paixão (Sidney) e responsabilidades (o filho) – e é acompanhado por uma Amy Adams que, através de olhares e entonações, torna Sidney uma mulher ao mesmo tempo confiante e vulnerável, presa a um relacionamento do qual acha que precisa escapar mas não consegue, em uma atuação minimalista digna de aplausos e brindes de cerveja (muitos brindes e muita cerveja). Pena que Jennifer Lawrence investe em um tom exagerado, fazendo com que Rosalyn, já maltratada pelo roteiro, fique ainda mais unidimensional e irritante (em raríssimos momentos a atriz não descamba para o descontrole dramático, mostrando que uma abordagem mais sensível só beneficiaria a história), ao passo que Bradley Cooper se limita a deslocar o queixo para o lado (mas ao menos ele é carismático).

Ao final da projeção, é impossível não sair com a sensação de que American Hustle é uma tentativa de emular Martin Scorsese – as narrações em off, os travellings, a estética, a abordagem frenética de algo no limiar da lei, até mesmo a atuação de Bale é levemente robertdenirozada. Mas Russell bateu na trave, criando uma obra que apenas mordisca as beiradas do seu potencial e das oportunidades de criar personagens inesquecíveis (algo que Scorsese fez com maestria em Casino, The Wolf of Wall Street e tantos outros). Em determinado momento, Irv mostra a Richie uma tela falsa de Rembrandt e pergunta “então quem é o mestre? Quem pintou ou quem forjou?”. No caso de American Hustle, a resposta é bem clara.

4star

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