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Por: André Costa

Crítica | Guardiões da Galáxia

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Uma série de reviravoltas e coincidências em alto espaço acaba reunindo um piloto egomaníaco, uma assassina fazendo cosplay de Hulk, um viciado em academia (tanto a física quanto a intelectual), uma araucária ambulante e alguém que é um híbrido entre Han Solo e uma personagem da Disney. Unidos por uma dose cavalar de azar, eles precisam proteger uma jóia superpoderosa de um vilão ameaçador para que a Marvel possa utilizar tal jóia em Vingadores 3, aniquilando os inimigos com muitas armas certeiras, golpes certeiros e piadas certeiras.

Pelo visto, todos os 700 milhões arrecadados pela Marvel com Captain America: The Winter Soldier (Capitão América 2: O Soldado Universal) foram investidos em energéticos e inspiração. Porque Guardians of the Galaxy (Guardiões da Galáxia) é uma daquelas aventuras empolgantes, divertidas, genuinamente engraçadas e completamente insanas, cuja galeria de personagens peculiares parecer ter sido colhida em uma plantação de carisma. Levando em conta o visual espetacular e que até os momentos dramáticos são bem construídos, a produção é o pontapé inicial de uma franquia de fanfarronice espacial que pode despejar diversão nas telonas por anos a fio. E se torna o melhor filme da Marvel Studios até aqui.

Talvez o momento mais emblemático seja o surgimento do título do filme: após uma caminhada séria por um ambiente inóspito e opressivo (que inclusive gera um lindo plano onde vemos só a silhueta e os olhos da máscara do protagonista), o lettering aparece quando Peter Quill liga o walkman e entra no modo “dance como se ninguém estivesse olhando”. É a prova irrefutável de que Guardians of the Galaxy vai seguir pelo caminho da zoeira absoluta, criando uma atmosfera despojada que permite não apenas subverter as convenções do gênero (Rocket falando “pronto, somos todos idiotas de pé” após a reunião ou a caminhada em câmera lenta), mas também construir e desenvolver ideias absurdas que se encaixam de forma orgânica na narrativa – diálogos tipo  “somos como o Kevin Bacon” podem parecer resultado de cogumelos alucinógenos à primeira vista, só que a película espalha com sucesso as sementes para colher mais tarde o humor nonsense.

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Aliás, os diálogos. Guardians of the Galaxy é um Prêmio Nobel de Literatura de diálogos épicos, seja para definir personagens (“não há nada como eu a não ser eu“), dar significado a alguma frase através da repetição (“eu sou Groot“) ou, em escala bem maior, nocautear o espectador com algumas das punchlines mais engraçadas do ano (“pare de me cutucar, tartaruga ninja!“, “se tivesse uma luz negra aqui, pareceria um quadro de Jason Pollock“, “eles receberam minha mensagem de babaca” e por aí vai). Os roteiristas James Gunn (que também dirige) e Nicole Perlman claramente escreveram tudo após cheirar quantidades monstruosas de gás do riso, colocando em cena sequências cômicas tão bem montadas que o roteiro poderia ganhar um diploma de engenharia: em diversos momentos as tiradas se amontoam em um frenesi humorístico que vai ganhando força, proporcionando risadas e definindo a forma tresloucada como aquele grupo de desajustados interage (a cena da fuga e do plano final contra Ronan são os exemplos perfeitos).

Importante lembrar que a mise-en-scène aqui é fundamental para o bom andamento das piadas, e o clima meio descontraído e meio histérico que toma conta dos guardiões se sai completamente vitorioso nessa questão (inclusive o filme ganha força sempre que Gunn enquadra dois ou mais personagens juntas – o que acontece com frequência -, permitindo um bate-rebate de implicâncias e uma dinâmica ágil com as reações e trejeitos dos envolvidos). As gags físicas também funcionam bem, seja quando uma pessoa dispara uma bazuca em outrém, seja nas expressões e atitudes hilárias que Groot exibe frente à câmera durante a projeção.

Claro, tudo funciona porque Guardians of the Galaxy consegue a) definir suas personagens e conferir personalidade à cada uma e b) fazer com que o público goste delas, sem diferença de cor, credo ou estrutura corpórea. Suas motivações e tendências estão sempre muito claras. Assim, a triste sequência inicial já define os valores de Quill, que se unem à persona desastrada e fanfarrona para criar um protagonista divertido, além de justificar as atitudes do sujeito (como a obsessão com a fita); a aliança de Gamorra é fruto de raivinha do padrasto, e ela mantém a atitude até o momento em que percebe que pode depender daquelas pessoas; o mesmo com Rocket, que é uma metralhadora de piadas e trata Quill como uma recompensa, para depois se dar conta de que não tem como não gostar do Chris Pratt; Drax busca apenas a vingança e inclusive age dessa forma, sem pensar nos outros quando é mais prático não pensar nos outros (a mensagem e o desafio que lança a Ronan); e Groot é Groot. As circunstâncias que unem o grupo são totalmente plausíveis, verossímeis dentro da lógica que a narrativa assume, e a produção aproveita a convivência dessa galera para ir mostrando que, aos poucos, eles começam a gostar da companhia dos outros – algo que o espectador vai sentindo conforme a projeção vai chegando até  a cena pós-créditos.

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 Graças a essa convivência, que catalisa incontáveis implicâncias, ofensas, discussões e muitas outras coisas que caracterizam a verdadeira amizade, o público é cativado por esse bando literalmente cosmopolita e envolvido pelos dramas pontuais, como a pista-recompensa de segurar a mão, a motivação de Drax ou o momento emocionante onde Quill fica com os olhos marejados, em uma cena onde Chris Pratt (Parks and Recreation )consegue emocionar sem cair no choro ou partir para algo mais caricatural. Aliás, Pratt preenche a tela com um carisma sobrenatural, conquistando o espectador desde o início com seus trejeitos ligeiramente desastrados e um timing cômico completamente em chamas. Bradley Cooper também chama a atenção com as inflexões de Rocker (percebam como o “oh yeah” mais arrastado é o que dá graça à determinada cena) e a seriedade que Dave Bautista emprega ao pronunciar as falas de Drax realçam as características humorísticas da personagem. Entretanto, o que mais se destaca é a química descomunal entre o elenco, que se reúne em cena como se salvar a galáxia fosse um grande churrasco regado a cerveja. Mesmo Groot faz parte dessas interações graças a um fantástico trabalho de CGI, e a inocência e capacidade de expressão daquele monte de lenha anabolizado são cativante, surgindo como os elementos que o tornam simpático).

Por falar em CGI, o visual de Guardians of the Galaxy é deslumbrante. Dos pêlos de Rocket e galhos de Groot às explosões no MMA entre as naves, tudo soa crível, jamais destoando do cenário e da fotografia utilizados. James Gunn aproveita para fazer sequências de ação empolgantes, que não se limitam a apenas explodir tudo e mostram as estratégias e decisões assumidas (Rocket virando a nave para cima, por exemplo, ou atirando ela contra determinado obstáculo). E ainda sobra espaço para momentos de puro “é isso aí!” estético, como a rede de naves ou a iluminação proporcionada por Groot. Enquanto isso, a direção de arte baixa a cabeça e trabalha para dar personalidade às culturas: a nave Kree remete muito aos templos egípicios, reforçando a ideia de crença, de algo quase divino; já as naves da Tropa Nova são leves e lembram estrelas, combinando com o visual arrojado da cidade; e Lugarnenhum é mais sujo, bagunçado, passando a ideia de uma região fora da lei mesmo.

A produção ainda conta com uma trilha sonora inspiradíssima, que alterna com eficiência entre canções pop dançantes e músicas compostas para o filme. Passando por David Bowie, The Runaways e Blue Swede, a trilha é um dos elementos cruciais para o clima farofeiro de Guardians of the Galaxy e se encaixa perfeitamente na narrativa, uma vez que boa parte da personalidade de Quill surge de uma pequena fita K7. O fato de não serem canções óbvias para um filme desse porte ajuda a criar uma identidade em torno da película, uma percepção de que aquilo é algo único, e no final você vai querer sair dançando e pilotando naves contra exércitos alienígenas. E, dada a abordagem peculiar, dada a cuidadosa elaboração de uma história que preza pelo contraste e pela maluquice, com certeza não há elogio maior para Guardians of the Galaxy do que a vontade de querer sair dançando e pilotando naves contra exércitos alienígenas.

A própósito: há uma cena após os créditos.

5star

Uma resposta para “Crítica | Guardiões da Galáxia”

  1. Pedro Gonçalves disse:

    é Jackson Pollock e não Jason

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