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Por: Redação Ligado em Série

Crítica | Os Mercenários 3

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Para dar cabo de um vilão traficante de armas/co-fundador dos Mercenários, Barney, um sujeito tão costurado de botox que parece uma personagem de uma revista do Asterix, demite sua turma de bombados armados por serem muito velhos (todos mais jovens que ele). No lugar, entra uma galera descolada que tem menos anabolizantes e ainda menos carisma (se é que isso é possível) e que precisa lidar com explosões, tiroteios, violência, muitos draminhas superficiais e algumas aparições de um charuto com o Arnold Schwarzenegger pendurado nele.

Expandables e Expendables 2 são duas obras que não entenderam sua própria proposta: reuniram a patotinha dos atores de ação mas, ao invés de investir na diversão, explosões, frases de efeito e etc, tentaram se levar muito a sério com dramas e conflitos pouco desenvolvidos (para não dizer anêmicos). Pois The Expendables 3 (Os Mercenários 3) consegue ampliar a derrota, pois mantém essa tentativa insana de ser pontualmente emotivo enquanto tira de cena a patotinha dos atores de ação, sem levar em conta que ver os caras juntos é o grande chamariz do projeto.

A bagunça é tamanha que, em determinado momento da película, a trilha é composta por apenas um piano melancólico – e vamos lá, um filme repleto de brutamontes que usam metralhadoras como chaveiros não é lugar para uma trilha com piano melancólico. Mas The Expendables 3 se enterra debaixo desses dramas batidos, que nada acrescentam à trama e poderiam muito bem ser vítima de uma das tantas facas presentes no set. Por exemplo, todo o discurso de “somos o passado” tenta criar algum conflito ao longo do filme, só que surge graças a uma missão onde os mercenários não foram exatamente amassados, embora Drummer diga isso (na verdade, quem jogou água no chope militar foi justamente o faniquito de Barney ao ver determinada personagem). Em nenhum momento parece que essas pessoas estão remotamente velhas ou incapazes. Soma-se a isso o fato de que a nova geração não parece melhor nem mais capaz do que a velha e pronto, falta de sentido. Não há contraste entre os grupos, o que significa que o conflito não é sustentado pelo filme, o que significa que toda vez que ele aparece ele destoa de absolutamente tudo em todas as sequências para sempre.

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E assim segue a produção, inserindo cenas chatíssimas de dramalhões novelescos rasos, irrelevantes e que sugerem uma ditadura de manuais de roteiro em Hollywood. Vamos contar: temos o “somos o passado“; o “você também carrega a culpa” com o Smilee; as correntes dos que já se foram penduradas; Barney dizendo a Luna que esta não é uma carreira para criar laços, embora isso contradiga totalmente o item anterior; a história triste de Galgo; e a autoajuda do “podemos fazer isso se trabalharmos juntos“. Parece que The Expendables 3 quer a todo momento inserir algum tipo de recompensa emocional na trama, e o faz se valendo da mesma estratégia usada por suas personagens para derrotar os inimigos: atirar neles o máximo de coisas possível no menor espaço de tempo possível.

Como não poderia deixar de ser, o resultado é insosso – o que é curioso pois, veja só, as personagens tambem são insossas! Com relação aos novatos, o máximo que a produção consegue fazer para diferenciá-los é colocar alguém de cabelo comprido e seios ali no meio, e mesmo as características “definidoras” parecem sevir mais para tentar enfiar alguma profundidade goela abaixo do público do que como elemento do filme (Smilee, que tem “problemas com autoridade”, segue as ordens como se fosse um namorado que fez algo errado). Do outro lado, a velha guarda continua uma massa disforme de músculos, tentando disfarçar o fato de que ninguém ali é interessante ou divertido através de uma camaradagem muito anunciada e pouco exibida (para o filme, colocar Christmas chamando Barney de “demente” duas vezes é “amizade”). Assim, quando Terry Crews grita de forma primitiva conforme entrega projetéis usando uma metralhadora viking, em uma cena onde o filme claramente tenta construir aqueles momentos de erguer uma garrafa de cerveja no ar e gritar “é isso aí!”, o único impacto é a vontade de saber se as balas vão acabar antes da voz dele acabar.

O fato de trabalhar com essa galeria de gente murrinha já prejudica um pouco a ação (e não estou exigindo aqui um arco narrativo brilhante, mas sim algum tipo de característica que faça o espectador gostar daquelas personagens, mesmo que seja apenas investindo em uma dinâmica mais divertida entre elas. Guardians of the Galaxy é um ótimo exemplo), mas a verdade é que The Expendables 3 fica no bê-a-bá da brincadeira: apesar das muitas (e boas) explosões, os tiroteios se resumem a um plano de alguém atirando e o contraplano de gente caindo no chão, soando repetitivos e sem graça, além de passarem a impressão que qualquer um poderia fazer aquilo. As coreografias raramente saem do lugar comum (socos certeiros e eventualmente alguém sendo atirado de um lado a outro) e a montagem dificulta a compreensão do que está acontecendo, já que o mínimo movimento é dividido em pelo menos três ou quatro planos diferentes, o que enfraquece o impacto das ações. Não, o filme não se preocupa muito em entregar alguma coisa diferenciada em termos de pancadaria, e em determinados momentos dá até para sair e ir no banheiro que, na volta, provavelmente a mesma coisa estará acontecendo (trocando talvez a personagem e o lugar).

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Em termos de atuações, não há muito o que falar. Ninguém consegue ser carismático suficiente e todo mundo se resume a olhar de cara feia e pronunciar os diálogos de forma ríspida – com exceção de Stallone, que tirou os músculos do rosto para colocar nos braços e agora é incapaz de reações emocionais, e Ronda Rousey, que acha que erguer o queixo é o único artifício dramático possível (mas, também, a moça não é atriz. Aliás, qual o motivo de chamar a campeã de MMA para um papel onde as lutas dela não chegam a trinta segundos de duração?). Pelo menos Mel Gibson não leva a coisa a sério e se diverte um pouco como Stonebanks, enquanto Antonio Banderas consegue escavar uma ou outra risada com os trejeitos e a entonação de Galgo (claro, a excentricidade da personagem é explorada até a exaustão e além, fazendo com que logo se junte ao grupo de gente sem sal que comanda a balbúrdia).

Pior é que, em alguns momentos, parece que The Expendables 3 vai sair do marasmo e correr em direção à felicidade. A cena do container é interessante, bem como aquela aterrisagem do barco no caminhão, e a subida da moto na maior rampa de todos os tempos é igualmente empolgante. Frases do tipo “como Churchill no auge” ou a metalingústica em “he’s out of the picture” são divertidas, são irreverentes, causam o tipo de efeito que esperamos de personagens como Barney e Christmas. Infelizmente são momentos muito pontuais, soterrados pelos draminhas fajutos e pela ação repetitiva que joga no conceito de quantidade, e não da qualidade. Assim como seus precedentes, a produção poderia ser muito melhor se abraçasse a ideia de um monte de caras se divertindo com explosões, uma mistura entre bromance e ação desenfreada, e não se preocupasse tanto em forçar conflitos dramáticos na história. Talvez Stallone e cia. devessem inspirar a série de filmes de ação mais em obras como The Raid e Dredd e menos em obras como The Fault in Our Stars (A Culpa é das Estrelas).

1star

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