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Por: André Costa

Crítica | Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1, de Francis Lawrence

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Após Katniss realizar um protesto anti-reality show bem convincente usando apenas uma flecha e e o legado de Benjamin Franklin, a Capital fica receosa e resolve aplicar a pena capital a torto e a direito. Mas uma revolução começa a se formar no supostamente devastado Distrito 13, com a ajuda do que sobrou para levar para a viagem do Distrito 12, e ambos os lados começam uma intrincada guerra de ideias, propagandas e descidas de sarrafo para ver quem leva as batatas.

Se The Hunger Games: Catching Fire (Jogos Vorazes: Em Chamas) mostrou no final que Katniss era apenas um joguete do destino (referência obrigatória a Shakespeare e Baz Luhrmann), The Hunger Games: Mockingjay – Part 1 é o registro em cartório dessa abordagem política: complexo, intrigante, envolvente e sem jamais perder de vista o custo de uma revolução, o filme consegue fugir do lugar comum e criar uma disputa crescente entre duas forças inteligentes ao mesmo tempo em que se aproxima de sua protagonista trágica.

Não à toa o filme começa com Katniss sozinha no cantinho do choro, de onde é retirada para um lugar que não conhece, com gente em quem não confia. Afinal, por melhor que sejam seus motivos, a turma da revolução enxerga na moça apenas um veículo de propaganda – e a produção deixa isso bem claro ao mostrar os planejamentos estratégicos, as discussões de conceito, as tentativas de tornar Katniss alguém que ela não é para que fique melhor na câmera (para ser mais publicitário que isso só se aparecesse um cliente pedindo para aumentar o logo). É uma coisa tão fanática que atiram Katniss no meio do Deus-nos-acuda sem sequer pensar duas vezes no bem-estar dela. O astuto Plutarch manja do riscado e, ainda que de forma consentida e com propósitos nobres, usa a protagonista como fósforo para acender o botijão que vai estourar a revolução. Do outro lado, Snow aproveita suas armas – Peeta e dinheiro – para contra-atacar ideologicamente, tentando manipular Panem e os sentimentos de seus adversários (“vamos mostrar o quanto custa ser amigo de Katniss“). Assim, The Hunger Games: Mockingjay – Part 1 consegue construir a escalada em direção à tomada da bastilha ao mesmo tempo em que desenvolve os dramas menores (a cena das rosas na cratera, por exemplo).

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Afinal, Katniss é o centro de tudo, e a produção consegue acompanhar ela de perto para reforçar sua preocupação com a família e Peeta. Claramente se unindo à revolução apenas para tentar manter seus entes queridos a salvo, a moça aqui possui um arco dramático forte onde precisa aceitar as mudanças e consequências da guerra que ela tanto temia. A complexidade do cenário é jogada em seus ombros, cada ação precisa ser muito bem pensada porque ninguém mais está se importando com o que é importante para ela, e a personagem se torna ainda mais fascinante por querer agir ainda que sem saber exatamente como (ao contrário dos filmes anteriores, que tinham um objetivo definido). Sua lealdade é cativante, e cada baque sofrido pela moça ecoa no coração do mais insensível zagueiro de futebol. Torcemos por Katniss, e o fato de não ser uma simples questão “ataca lá e corre pro abraço”, de existirem dois grupos tentando vencer às suas custas, não importando o preço, faz com que o sofrimento dela se torne mais pesado (um abraço específico em Haymatch é particularmente tocante).

Ao contrário dos filmes anteriores, que eram pontuados por momentos coloridos e extravagantes, pontuais intervenções onde pegaram designers de moda e falaram “enlouqueça!”, The Hunger Games: Mockingjay – Part 1 se passa quase todo no cinzento Distrito 13, onde portas cinzas e uniformes cinzas e expressões cinzas conferem ao local uma atmosfera seca, claustrofóbica e, bem, cinza. Quase não se vê a Capital, e quando o fazemos é na suíte ditatorial ou à noite – enquanto isso, os outros distritos mostrados são uma floresta ou um amontoado de destroços, seguindo a linha monocromática. O diretor Francis Lawrence contribui com a sensação usando planos fechados nas personagens e tornando o Distrito 13 uma presença quase inescapável (por exemplo, a cena em que uma nave decola com Gale e Katniss acompanhaBoggs caminhando de volta à base enquanto ao fundo a ação acontece). Já os momentos de quebra-pau são mostrados em um estilo mais documental, a câmera na mão acompanhando e correndo junto com as pessoas, nada que pareça muito ensaiado e coreografado, o que confere uma eficiente atmosfera de tensão às cenas (e a trilha consegue ser épica quando precisa).

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Mais uma vez, Jennifer Lawrence carrega o filme com muita competência e coração, tornando Katniss uma figura ao mesmo tempo intensa e vulnerável, ao mesmo tempo determinada e indecisa, em uma representação perfeita do que é estar presa em acontecimentos além do seu controle (ou ser jovem, o que dá no mesmo). E conta com um elenco de apoio afiado – que, claro, possui menos tempo de tela e mais unidimensionalidade, mas que, da divertida Effie e seus gestos afetados ao carismático Haymatch de Woody Harrelson (passando por uma Julianne Moore que torna a presidente Coin uma rocha revestida de rochas e que vive a filosofia de uma rocha), se tornam relevantes quando aparecem e colaboram para uma mise-en-scène incrivelmente natural (e é agridoce ver Philip Seymour Hoffman tornando Plutarch uma personagem tão inteligente e impressionante com uma atuação equilibrada, sem grandes exageros ou gestos, sabendo que é o último papel de um ator tão fantástico).

Só Liam Hemsworth é que parece vir da escola de atuação Madame Tussauds e não consegue fazer muito além de ficar parado com cara de poodle. O que é emblemático, já que a relação entre Gale e Katniss é a pequena derrapada da produção, que não consegue justificar muito a atração ou desenvolver uma química envolvente entre os atores (e diálogos tipo “só se eu estivesse morto” não devem nada à série Crepúsculo). Não chega a atrapalhar muito – os eventos que surgem tendo a relação entre ambos como motivação (a missão de resgate, o abraço em Haymatch) soam bastante sólidos -, mas é algo que poderia acrescentar mais ao filme. De qualquer jeito, The Hunger Games: Mockingjay – Part 1 surpreende ao puxar os blockbusters para o lado das ideias, das personagens, da atmosfera, e o faz com muito sucesso. O resultado é um entretenimento complexo e que apresenta para o espectador conceitos interessantes. E que, através da construção cuidadosa, cria uma montagem paralela repleta de significado e força em um desfecho poderoso e perturbador.

5star

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