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Por: Redação Ligado em Série

Menos trailers, por favor

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Dia desses, a Warner/DC lançou um teaser de Batman vs Superman: Dawn of Justice. Menos de um minuto de vídeo mostrando a roupa do homem-morcego e do homem-collant e nada mais. Algo completamente desnecessário, uma vez que a função do teaser é provocar e o de Batman vs Superman não fez nem cócegas, já que a) todo mundo sabia que o filme vai sair e b) ele mostrava menos do que cena de sexo na TV aberta. Caso fosse um cenário diferente, caso não tivessem anunciado a produção e um grupo de espectadores incautos fosse nocauteado com o vídeo em um cinema ou uma internet qualquer, a coisa ia mudar de figura. Mas, do jeito que aconteceu, pareceu algo tão perdido quanto os roteiristas de Gotham.

Claro, a situação toda é sintomática do exibicionismo descontrolado tomou conta das campanhas publicitárias de Hollywood: cada mísero lançamento da terra do letreiro reúne a seu lado uma infantaria de teasers, trailers, clipes, featurettes, vídeos de bastidores, spots de TV e, futura e inevitavelmente, vines. A ânsia de bombardear os consumidores com, abre aspas, conteúdo novo, fecha aspas, faz com que o principal elemento do filme se torne o marketing, e não o filme propriamente dito, e quando o principal objetivo é despejar buzz nas redes sociais para atrair os espectadores, vale tudo.

A coisa é tão patológica que não há apenas um trailer, mas três ou quatro, em uma das mais evidentes demonstrações de baixa auto-estima que se tem registro – é como aquele(a) seu companheiro(a) que sempre pergunta várias vezes “mas ficou bonito mesmo?”, abrindo caminho para poder receber mais um elogio. Assim, o que antes era uma peça promocional agora se tornou uma campanha de spoilers, sempre tentando mostrar cenas novas e inéditas para angariar mais ingressos nas sessões (quando do lançamento de The Amazing Spider-Man, um sujeito, unindo apenas material publicitário, conseguiu juntar vinte e cinco minutos do filme em um clipe. Vinte e cinco minutos cedidos pelos próprios estúdios antes da película entrar em cartaz).

A grande verdade, e aqui vai o maior plot twist da história, é que Hollywood não se importa se você gostou do filme ou não, apenas se pagou para assisti-lo. Não se importa com a frustração de ir assistir a uma produção e ver que todas as cenas e piadas boas estão no trailer, ou com a falta de surpresa com um final que já foi antecipado no material publicitário. Não, não, tudo que Hollywood quer é vestir uma fantasia de carnaval e sair correndo pela rua com fogos de artifício nas mãos e gritando “olhem para mim!”. Lembro que a melhor cena do trailer de Iron Man 2 (Pepper beijando o capacete) não entrou no filme. Lembro também que o trailer de The Impossible mostrou o final da película sem nem ficar vermelho de vergonha. Lembro que o trailer de The Theory of Everything propagandeia uma das principais características do protagonista, a voz metálica (“ele nunca mais vai falar” “sim, ele vai”), usando a montagem para reunir dois momentos diferentes em uma cena que não existe no filme. Aliás, há uma fala específica desse trailer que parece ter sido feita especificamente para resumir parte da história em um curto intervalo de tempo (“foi você que se voluntariou para um PhD em física”), e não me surpreenderia descobrir que ela foi colocada ali já pensando no material promocional.

Para evitar surpresas desagradáveis, há muito tempo que a solução é assistir a apenas um trailer e ignorar completamente o resto. E mesmo assim não é nada garantido: o trailer de Foxcatcher, por exemplo, sugere uma atmosfera muito mais thrilleresca e combativa do que o filme realmente oferece, e só se safa porque a abordagem da produção consegue ser ainda melhor do que a abordagem publicitária. Na verdade, o problema todo é que as produtoras e estúdios querem criar o hype nas redes sociais e não dão a mínima para como isso afeta o produto em si – o próprio anúncio dos lançamentos da Marvel e DC até 2020, por exemplo, faz com que o público saiba que nada vai acontecer com os heróis porque eles precisam voltar na continuação em 2017 (ok, blockbusters não matam protagonistas, mas podia rolar um cliffhanger ótimo no final de algum filme). Além disso, a cena durante os créditos de Avengers: Age of Ultron poderia ser épica, mas é arruinada pelo fato de que já temos uma ideia do plot do próximo filme, um exemplo cirúrgico de como o marking criou um embargo contra a empolgação naqueles trinta segundos extas.

Qualquer coisa em excesso é prejudicial, já diriam todas as mães do mundo (será que um excesso de avisos sobre como o excesso de coisas é prejudicial é prejudicial? Mas divago). Trailers não fogem à regra: entregam cenas, reviravoltas, revelações, estragam momentos grandiosos e criam expectativas que muitas vezes não são cumpridas. É lógico que, como ferramenta promocional, é algo necessário e intrínseco à indústria fílmica, e se contar de forma eficiente o plot da história ou reproduzir a atmosfera da produção, com certeza se torna um veículo vantajoso tanto para o produtor como para o público, que consegue um vislumbre mais definido do que irá assistir. Mas o que acontece agora é que a própria promoção da película acaba com ela, deixando um rastro de destruição psicológica ao antecipar tudo que veremos nos cinemas. E não há nada mais a dizer a não ser: menos trailers, por favor.

11 respostas para “Menos trailers, por favor”

  1. Michael Guima disse:

    Lido com essa situação muito facilmente. Há muito tempo deixei de assistir trailers. Os únicos que assisto são aqueles que passam antes da sessão no cinema. Como ultimamente só colocam trailers dublados em sessões legendadas, nem esses agora eu assisto também.

  2. Vinícius disse:

    Minha solução:

    Não assisto trailers mais de uma vez, não entro na onda do teaser. Se possível, descubro os filmes nos trailers da própria sala de cinema. Vingadores 2 mesmo só assisti ao trailer 1 semana antes da estreia, em uma sessão de Chapie.

  3. Ademar Abiko Jr. disse:

    Não vejo problema quando você não é forçado a assistir ao trailer. O click no play é necessário. É diferente do spoiler escrito/imagético, que escapa e é absorvido involuntariamente.

    Ou seja, a diversidade de trailers torna versátil o consumo daquele produto. Tem tanto para aquele que quer saber de tudo antes e tem para quem quer ficar livre de qualquer informação.

    Concordo na parte sobre tons dos trailers. Eles tem se desviado bastante da obra e isso só tende a gerar decepção.

  4. Luiz disse:

    Já faz anos que não assisto mais trailers. Tirando toda a necessidade de que realmente as produtoras precisam ganhar dinheiro, fico pensando porque não tentar através do trailer vender a ideologia do filme e não vender o filme. Ou seja, criar uma atmosfera de dúvidas e incertezas, sem entregar os momentos chaves. Colocar diálogos estratégicos, uma cena ou outra apenas mostrando os ambientes do combate, etc… Não assisti a Era de Ultron ainda, mas já me falaram que todas as cenas de ação aparecem nos trailers e que no trailer do novo Terminator mostra uma reviravolta importante da trama. Triste.

    Sem contar com a necessidade de extrair até o último centavo das franquias, com spin-offs, remakes, reboots. Creio que Hollywood passa pela fase criativa mais decadente de sua história.

  5. Lana Del Velcro disse:

    O tempo que eu passava assistindo trailers agora eu passo vendo séries.

  6. Bruno Sousa disse:

    Concordo plenamente! Hoje em dia eles estão entregando tudo no trailer!!

  7. Felipe Storino disse:

    Outro dia mesmo eu tava comentando sobre isso no twitter. Há muito tempo passei a assistir no máximo dois trailers dos filmes, porém às vezes nem isso é suficiente. Vingadores 2 é um ótimo exemplo, eu assisti apenas um trailer, mas foi impossível não ficar sabendo da participação do Visão no filme e isso deixou a experiência bem mais sem graça. Um momento que deveria ser de empolgação no cinema a única coisa que consegui pensar foi “ah, é agora que o Visão aparece”.

  8. rocorby disse:

    A maioria dos trailers lançados hoje em dia entregam por completo a historia do filme,mostrando a historia inteira e ate direta ou indiretamente seu final. Outros criam um hype tao gigantesco no filme que acaba prejudicando na sua impressao com o publico,seja o filme mesmo ruim de fato ou so nao era aquela coisa que o trailer sugeria. Sao raros os trailers que nao entregam a historia e apenas criam uma ediçao bacana com cenas e uma trilha que instiga o individuo a assitir o filme. Uma pena

  9. aleguarita disse:

    Concordo com o artigo. Tá demais mesmo.
    O caso do Batman vs. Superman é ainda mais sintomático, pois aquele era um teaser não para o filme, mas para o trailer que seria lançado em breve. Um teaser para um trailer…

  10. Anderson Lima disse:

    Alguns trailers realmente são uma “propaganda enganosa”, vendendo algo diferente da realidade.

  11. Douglas Elias disse:

    Divagando um pouco sobre o tema, enquanto hollywood não liga se gostamos ou não de um filme e só querem que paguemos para ver, os grandes sites (os pelo menos a maioria deles) também não ligam. Criticam esse comportamento, mas é uma corrida absurda pra ver quem vai ser o primeiro a publicar o décimo trailer de Vingadores e claro fazer um vídeo comentando cada quadro desse trailer, pois pra eles o que importa é o nosso clique.

    É um ciclo vicioso:

    1 – Hollywood divulga o trailer (afinal precisam garantir que o filme venda);

    2 – Os sites correm loucamente para publicar (afinal o décimo trailer de um filme rende mais cliques que uma crítica, na maioria da vezes pelo menos);

    3 – As pessoas dizem que odeiam, mas como não conseguem se segurar e precisar comentam a sua opinião nas redes sociais, elas vão e assistem, compartilham, porque precisam estar por dentro de tudo;

    4 – Vendo que as pessoas vão divulgar de graça o seu produto, hollywood vai produzir mais e mais material para os sites publicarem e para as pessoas compartilharem

    E por ai vai, o mesmo que reclama é o mesmo que alimenta esse ciclo.

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