quarta-feira, fevereiro 28 2024

community 6x13

[com spoilers do episódio 6×13] Community sempre andou na corda bamba. Ia ser cancelada, não ia, daí foi, daí o Yahoo! fez RCP e trouxe a série de volta para esta sexta temporada e, claro, ainda há a o filme de Community de Schrodinger – e o que sempre manteve Abed e amigos nas cabeças foi a movimentação dos fãs, que não deixavam a coisa morrer. Emotional Consequences of Broadcast Television, o season (e possível series) finale, de certa forma aborda isso: em uma projeção que não é nem um pouco psicologicamente perturbadora, Jeff atua como o público, querendo manter as coisas e se recusando a deixar tudo mudar. E o arco percorrido por ele é como se Community dissesse ao público “está tudo bem se a gente não voltar desta vez“.

É um arco que já vinha sendo abordado na temporada, e há um certo tempo, na verdade. O medo de Jeff de ficar para trás não é algo novo, mas, graças à metalinguagem descontrolada que começou no episódio passado, ele se torna um comentário sobre a própria série. A dificuldade em criar coisas novas, em não cair no estereótipo fácil, manter o ritmo após a saída de atores e até mesmo em sobreviver nessa guerra de foice de números de audiência (“shows de TV são baseados em estúdios que querem espremer até o último centavo deles“) aparecem de forma orgânica nas narrativas individuais. Por outro lado, Community nunca pareceu tão real: a fotografia escura dá uma certa atmosfera melancólica, as decisões parecem irrevogáveis e, bem, temos os dois primeiros palavrões da história do show. O buraco é mais embaixo.

O que não significa que Emotional Consequences of Broadcast Television tenha esquecido o humor na mesinha ao lado do notebook, claro. A oportunidade de construir diferentes cenários communityanos é aproveitada com gosto, criando momentos hilários – a introdução da sequência criada por Britta é vitória por nocaute – e elabora a situação a tal ponto que ilustra a frustração de Jeff com Abed através de uma sequência que me lembrou imediatamente Being John Malkovich, e, proposital ou não, isso é o tipo de coisa que só Community faz. Aliás, as piadas com a Marvel mostram que a série tem culhões para dar tapa na cara de hypezinho nerd sem problema nenhum, ao mesmo tempo em que usa bem a pista recompensa para botar Chang peidando durante a quarta vez que Abed fala “cool” (e a quarta temporada foi a única sem o Dan Harmon e a mais criticada. Eles estão quase literalmente dizendo que ela foi uma merda. É ou não é coisa de fazer brindes alucinados com cerveja?).

community 6x13a

O episódio também não tem medo de desconstruir a estrutura humorística do grupo de estudos, explicando de forma bem didática qual era a função de cada um, o que ajuda a dar um clima de “desfecho” – expor a fórmula é como revelar o truque do mágico, e a ilusão não se sustenta depois disso. Mas também despe as personagens e deixa mais espaço para que elas fiquem mais vulneráveis, o que resulta em momentos genuinamente tocantes no meio do humor – porque Emotional Consequences of Broadcast Television é sim engraçado, irreverente e curte subverter as convenções dramáticas. É também preenchido por uma atmosfera de sinceridade quase brutal, ilustrada pela referência que Abed faz à despedida de Troy ou ao beijo entre Jeff e Annie, o que envolve o espectador e torna os momentos de despedida mais sensíveis.

Contando com mais um brilhante vídeo pós-episódio (um dos pontos fortes desta temporada), que provoca tsunamis de metalinguagem e encerra meio que com um rápido e ácido resumo dos acontecimentos que envolveram a série ao longo dos anos, este season/series finale é engraçado na medida certa, insano na medida certa, reverencioso na medida certa, criativo na medida certa e tocante na medida certa. Olhando para trás, Community cresceu muito e agregou muito ao show desde aquele episódio piloto com o brilhante “nós damos um Oscar de Melhor Roteiro para Ben Affleck” – algumas coisas pioraram, claro, mas dá para dizer que a série foi para a frente e se manteve íntegra. Não sei se chegamos ao ponto final, mas, se for este o caso, Emotional Consequences of Broadcast Television provoca aquela sensação agridoce que caracteriza todas as despedidas. E, por hype, expectativa, esperança, fé, incentivo e fanfarronice, acredito que a única maneira de terminar esta crítica seja da seguinte forma:

#andamovie

5star

8 comments

  1. Amei a crítica!! Tive exatamente essas sensações ao assistir esse possível series finale. Cada fala dos personagens, os cenários imaginados, tudo foi tão bem pensado que se acabar agora, não vai ter deixado a desejar. Mal posso esperar pelo filme!

  2. Ai queria muito que a série não acabasse, mas tudo tem um fim. Esperando pelo filme.
    Aguardando uma nova série humorística no mesmo nível, mas tá difícil viu…

  3. Chorei, porque não quero deixar ir. Relembro e me consolo. Esse último e derradeiro episódio foi um reconforto para os fãs ao mesmo tempo que foi um sincera despedida para eles e para a própria série. É difícil dizer tchau, mas precisamos lidar com o fim e a 6ª temporada de Community estava nos preparando para isso.

    #andamovie

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