FOTO: REPRODUçãO

Por: André Costa

Brooklyn Nine-Nine: Full Boyle

full boyle

Full Boyle é um daqueles episódios de Brooklyn Nine-Nine que, como os preguiçosos The Bet e Pontiac Bandid, tiram Boyle do seu estado comum (um dos grandes trunfos da personagem é a dinâmica que mantém tradicionalmente com o resto da equipe) e tenta fazer ele se destacar pelo exagero – e, assim como nos dois episódios citados, no início parece que Full Boyle é um carro desgovernado prestes a se chocar violentamente contra um muro de fracasso. Mas aos poucos a coisa se ajeita, fazendo com que o resultado final sequestre risadas o suficiente para ser divertido.

O grande problema aqui é que, logo no início, o episódio investe na abordagem da personagem nem remotamente sexy se achando extremamente sexy, já usada tantas vezes que, desconfio, é parte do currículo escolar americano. Assim, Brooklyn Nine-Nine se vê colocando coisas como Boyle dizendo “Olhos aqui em cima, Gina, não sou um pedaço de carne” antes que você possa dizer “previsível”. Da mesma forma, o momento onde Full Boyle estabele as outras tramas – Rosa e Amy com o sujeito fantasiado, Holt com a eleição da sua organização – surge de forma extremamente burocrática, criando um cenário que parece preparar para uma grande piada que nunca chega (convenhamos que “Eu estou… ocupada” é uma reação bem menor do que esperamos de Rosa ao encontrar alguém fantasiado de super herói).

Mas aquele espírito que Brooklyn Nine-Nine tem de surpreender com grandes diálogos ou flashbacks se mostra vivo, principalmente na xenofobia absoluta de uma senhora ao descrever um suspeito e na conversa onde Boyle diz “O sujeito era do Canadá, disse que provavelmente foi sua culpa ser roubado e pediu desculpas por tomar meu tempo“. E a coisa começa a engrenar graças à química ensandecida dos atores – além do roteiro, claro -, fazendo com que, por exemplo, o contraste entre Gina e Holt torne o momento onde ele conta uma piada algo absurdo e engraçado, assim como Rosa fazendo jus à sua fama (“você disse que o superpoder dele era ser tão vergonhoso que as pessoas riam até morrer“) ou a bizarrice de Scully e Hitchcock superando a expectativa criada pela deixa (o momento onde um está limpando o outro).

Já Jake e Boyle rapidamente voltam à sua dinâmica divertida, fazendo com que a trama vá se tornando divertida, apesar de previsível. E há também uma sensação de que as coisas estão crescendo, piorando, e a presença dos dois em cena é o que realmente leva a situação ao absurdo que exige: a semi-histeria de Boyle entrando em conflito com os ótimos diálogos (“isso desperta alguma coisa muito primitiva e nojenta em vocês“) e a tensão de Jake ao ver a vaca indo monumentalmente para o brejo é um campo minado de piadas, e as conversas (bem como a montagem) são ágeis o suficientes para mostrar que a situação está chegando ao limite – e um flashback específico envolvendo refrigerantes é brilhante porque a) surpreende o espectador dando sequência a uma piada que já parecia acabada, e b) vai fazer refrigerante sair pelo seu nariz se você estiver tomando algum enquanto assiste, tornando o refrigerante do episódio algo transmídia.

Assim, é bom ver que Brooklyn Nine-Nine continua capaz de tiros e piadas certeiras. Infelizmente, os desfechos absurdamente previsíveis e politicamente corretos das tramas, daquele tipo tão piegas que faria até a Disney balançar a cabeça em reprovação, parecem ser algo recorrente – e Full Boyle é mais um indicativo de que, embora consiga ótimos momentos em situações específicas, a série não quer ser arriscar muito nos plots, nas relações entre as personagens ou mesmo na forma com que lidam com os eventos. É algo que, até agora, não incomodou muito, mas certamente poderá atrapalhar caso Brooklyn Nine-Nine se estenda por mais temporadas.

3star

Deixe uma resposta

ss