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Por: André Costa

Crítica | O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro

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Após impedir que Nova York se tornasse a Capital dos Répteis Antropomorfizados em The Amazing Spider-Man (O Espetacular Homem-Aranha), Peter Parker precisa lidar com as dificuldades de equilibrar sua vida social e sua vida de acrobata do Cirque du Soleil/justiceiro, além de se sentir culpado por namorar a Gwen Stacy. As coisas pioram quando um sujeito ganha superpoderes após sofrer um acidente chocante (aliás, no universo do Aranha aparentemente é bom sofrer acidentes. Não entendo porque as pessoas não sofrem acidentes deliberadamente), decidindo tocar o terror na cidade, e Harry Osborn volta a Nova York apenas para descobrir que possui uma doença incurável que vai matá-lo e deixar suas unhas como as do Zé do Caixão.

Blockbusters de super-heróis tem sido uma das principais formas de os executivos hollywoodianos continuarem acendendo seus charutos com notas de cem dólares. Assim, aumenta o investimento na produção, aumenta a obrigação do retorno financeiro e aumenta o tempo de permanência na zona de conforto, realizando filmes cuja narrativa anda pisando em ovos, sem arriscar incomodar alguém ou fazer algo que destoe do padrão – o que resulta em baboseiras insossas como Captain America: The Winter Soldier e Thor: The Dark World. A boa notícia é que The Amazing Spider Man 2 (O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro) foge do formulismo, se preocupando com as características de seu protagonista e os conflitos que necessariamente enfrenta. E mesmo que algumas tramas e soluções escorreguem em cascas de banana, a produção tem tanta diversão e ação que supera os contratempos.

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Um dos principais acertos de The Amazing Spider Man 2 é conferir personalidade ao seu protagonista. Em vez de simplesmente ser um artifício do roteiro que sai por aí interagindo com CGIs aleatórios, o cabeça-de-teia é uma personagem divertida, carismática e irreverente, conseguindo ser genuinamente engraçado nos diálogos (“Isso são sirenes?“, “Hã… não“, “e em nome dos rinocerontes de verdade“), nas gags físicas (a do herói pegando os frascos no camburão ou Peter ajudando Gwen na Oscorp) e até em ambos (um momento específico onde Gwen grita “Peter!“). É um humor que entra de forma orgânica na narrativa, sem soar forçado ou apostar em piadinhas óbvias, tornando a produção extremamente dinâmica e agradável de acompanhar. Além disso, The Amazing Spider Man 2 mantém o Aranha no tom certo de deboche, sem desandar para aquele lado verborrágico ou irritante, tornando o protagonista uma figura simpática e humana diante daquele blitzkrieg de efeitos especiais (e a primeira sequência de ação do herói é extremamente eficiente nesse quesito, apresentando de forma clara e concisa a personalidade, as habilidades e os valores do cabeça-de-teia ).

Mas o filme se preocupa também em desenvolver e estabelecer suas tramas (OK, algumas delas), utilizando tempo de projeção para mostrar, e não apenas informar, as relações entre as personagens, bem como informações necessárias: Peter e Gwen não estão juntos apenas porque seus rostos aparecem maiores nos cartazes da produção, mas porque possuem um entendimento, conversam, brincam, se divertem juntos (como na cena no armário); ainda que iniciando de forma súbita, a relação entre Peter e Harry é justificada com as conversas e implicâncias entre os dois, o que torna a coisa mais palpável, independente das diferenças de personalidade e corte de cabelo; a personalidade completamente groupie e clinicamente insana do Electro é ilustrada desde o início, justificando seus ataques de loucura total posteriores ao acidente que o transforma em uma tomada; e por aí vai.

E há o arco dramático percorrido por Peter, que se angustia com os seus conflitos e cujo desfecho final, carregado de emoção, é construído com vitória por uma narrativa que constantemente revive os elementos desse arco (as aparições do pai de Gwen). Utilizando também recursos como elipses para jogar gás do riso no público (a montagem com as intervenções salvadoras do Aranha é sensacional. Nunca uma imagem de alguém segurando um peixe foi tão cool), o roteiro se mostra eficiente e com frequência toma a decisão correta ao longo da história.

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Só que não chega a ganhar uma pulseirinha para a área VIP dos roteiros por eventualmente dar com os burros na água: a presença da trama envolvendo os pais de Peter é praticamente um verbete da Wikipédia sobre a palavra “inexplicável” (dá para cortar ela sem prejuízo ao filme. Literalmente); algumas soluções claramente foram boladas em uma manhã chuvosa de domingo (Harry simplesmente invade um estabelecimento secreto sozinho, armado apenas com a necessidade do roteiro); alguns diálogos são batidos e derramam açúcar pela tela do cinema (“eu escolho você“); e, por vezes, o filme emula uma comédia romântica (há inclusive a corrida do mocinho para impedir que a mocinha chegue ao aeroporto para viajar, substituindo apenas “corrida” por “balançar de teias”) ou um drama de auto-ajuda (o discurso final, que, se abordado com mais sobriedade, poderia ser uma pista-recompensa comovente). São questões pontuais, que não chegam a atrapalhar o andamento geral da coisa, mas incomodam quando dão as caras.

Completamente dopado de adrenalina e vídeos de câmeras GoPro, Marc Webb cria sequências visuais épicas, envolventes, daquelas que obrigarão os mais sensíveis a tomar um Dramin para evitar a tontura. A câmera acompanha o Aranha se balançando pela cidade em planos longos, passeia com o herói pelos quarteirões de Nova York, se aproxima, se afasta, cai dezenas de andares junto com o cabeça-de-teia, há até um contra-plongée enlouquecido durante uma das travessias, tipo de ideia que não faz nenhum sentido até alguém botar em prática e ficar sensacional. É uma experiência incrível seguir aquele jovem de collant vermelho e azul enquanto ele passei pelos céus da cidade, ainda mais com a trilha acertada (embora aqui e ali ela exagere um pouco).

E as cenas de ação não ficam muito atrás, impressionando pelas coreografias ágeis e velocidade das batalhas, o que confere um tom de urgência e perigo à pancadaria – Webb inclusive utiliza com parcimônia o recurso de alternar entre a câmera lenta e a velocidade normal no mesmo plano, que aqui funciona muito bem para ilustrar a rapidez das lutas ao mesmo tempo em que permite ao espectador ver o que está acontecendo (e a escala de destruição torna a coisa ainda mais perigosa). O grande destaque, entretanto, fica para o semi-bullet time empregado para ilustrar  percepção do aracnídeo, sempre com resultados ótimos e que, na cena da escadaria da Times Square, já lança uma candidata a grande sequência de ação do ano.

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Como Homem-Aranha, Andrew Garfield mostra um ótimo timing cômico, conseguindo tornar alguém debaixo de uma máscara bastante carismático e irreverente – infelizmente, como Peter Parker, o ator se resume a tentar ficar desconfortável de uma forma nada natural, gaguejando ou exagerando nos trejeitos. Já Emma Stone compõe uma Gwen extremamente sensível e determinada ao mesmo tempo, além de ter uma boa química com o protagonista, e Dane Dehaan torna a transformação de Harry convincente, indo de movimentos contidos a olhares e sorrisos lunáticos que indicam a natureza instável do sujeito. O resto do elenco se mostra semelhante ao meio de campo da seleção brasileira: eficiente, mas sem grandes destaques individuais (até pelas limitações impostas pelo roteiro).

Contando ainda com espaço para simbolismos bacanas (o reflexo distorcido de Harry, a luta final em um relógio como se não houvesse mais tempo) e momentos incrivelmente sensíveis e inspirados (a teia que se transforma em uma mão, o reflexo da queda no olho da máscara), The Amazing Spider-Man 2 é uma muito bem-vinda exceção nestes tempos onde os heróis parecem todos iguais. Dá uns tropeços, é verdade, e mesmo os efeitos especiais deixam a desejar em alguns momentos, mas consegue construir um protagonista cativante em uma história bem contada, divertida e com ação desenfreada. Pelo visto, a Sony compreendeu que grandes personagens podem trazer grandes aventuras.

4star

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