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Por: André Costa

Crítica | O ótimo season finale de True Detective

true detective finale

[com spoilers do episódio] Após um início um tanto instável – aquela explicação para o cliffhanger do segundo episódio é tão difícil de digerir que poderia ser vendida em rodoviárias -. a segunda temporada de True Detective botou a cabeça no lugar e decidiu mostrar para todo mundo com quantas cicatrizes psicológicas se constrói uma atmosfera noir, conseguindo fazer a narrativa e o clima pesado morbidamente obeso caminharem de forma cada vez mais fluida. Omega Station, o episódio que encerra a jornada, é um desfecho à altura de tudo que se construiu aqui: incômodo, impiedoso, intenso e incrível.

As comparações com a primeira temporada parecem inevitáveis, dada a verdadeira beatlemania provocada pela dita-cuja, mas não são pertinentes: enquanto a outra história tinha como temas principais duas personagens fortes se conectando e pântanos (principalmente pântanos), a segunda temporada é povoada por prováveis integrantes das salas de bate-papo do Terra, pessoas incapazes de se conectar com alguém, como ilustraram os diversos planos das rodovias/cubos de Rubik da Califórnia. O niilismo deu lugar ao noir e à tristeza que carrega à tiracolo, sem alentos, quatro personagens que estão à mercê de suas fragilidades e não sabem como escapar e são massacradas por isso. Frank é traído mais de uma vez e não consegue ter a conexão “definitiva” com a esposa (nível esperma com óvulo), e prefere até mesmo o orgulho a ter um pouco mais de chance de vê-la de novo (o soco desferido). Woodrugh tem problemas com a mãe, com a namorada e com sua amizade colorida. Bezzerides rechaça o pai, julga a irmã e afasta os colegas/amigos usando essa coisa repulsiva chamada sexo. E Velcoro é tão sozinho que só a ideia de ter um filho, o amor incondicional, é o suficiente (lembrem que ele prefere não ver o garoto a fazer o teste de paternidade e abrir espaço para uma verdade esmagadora).

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Não à toa Velcoro e Bezzerides só se pegam em um ambiente hermeticamente selado, sufocante, onde não há como o mundo exterior entrar – a troca de intimidades e confissões acontece em cenas que alternam entre a fotografia mais íntima (os tons pastéis, quando está tudo fechado) e uma mais fria e estéril (quando as janelas são abertas e ambos precisam encarar que a vaca está indo pro brejo etc). É como se o romance, tal qual a vontade de se mexer, não sobrevivesse debaixo do sol (sim, eles tentam ficar juntos, mas não rola nada pós-pé fora do quarto). Do outro lado, Frank despenca na racionalização descontrolada para não ir embora com a esposa, metralhando uma série de justificativas que parecem servir mais para ele do que para ela. Há um espaço entre ambos.

Porque Omega Station não tem nenhuma ambição de glamourizar a solidão, o crime, a justiça, a vingança, as relações ou os planos de dados das operadoras telefônicas. Nada disso termina em alguma recompensa: o assassino consegue o que quer, os bandidos voltam ao poder, o roubo do dinheiro não habilita a fuga, uma boa ação (ver o filho) bota tudo a perder, uma pequena conexão entre duas pessoas é logo interrompida. Assim, o desfecho da temporada consegue tornar a atmosfera ainda mais desolada sem, com isso, recorrer a soluções ou situações exageradamente dramáticas. A tensão e o esgotamento são tão grandes que, ao final do episódio, a sensação é a de se metamorfosear em uma canção do Radiohead.

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Com tudo já bem preparado por Black Maps and Motel Rooms, o season finale conseguiu amarrar as pontas de forma orgânica (descobrimos quem é o pássaro, o que acontece com ele, com o capitão, com o prefeito, as motivações e por aí vai), aproveitando o ensejo para polvilhar três ótimas sequências de “chumbo neles” durante a hora e meia de duração. Há inclusive espaço para mostrar a inteligência de Frank na abordagem à cabana (sério, aquela estratégia das máscaras foi napoleônica) e para diálogos que causam mais estrago do que balas – “(…) mas Osip, quando as luzes se apagarem, serei eu ali“, Frank desfralda em determinado momento, mantendo seu privilégio de receber sempre as melhores falas. O ritmo é cadenciado, mas Omega Station jamais se torna monótono e segue de forma convicta e bem estruturada em direção ao clímax.

Um clímax composto por uma sensacional montagem paralela mostrando os destinos de Frank, Ray e Bezzerides. A decisão de colocar cada um deles em uma paisagem diferente – Frank no deserto, Ray na floresta, Bezzerides na água – realça ainda mais a distância dessas pessoas, que acabaram em mundos praticamente diferentes. Porque esse é o lance desta segunda temporada de True Detective: atmosfera carregada, personagens trágicas, culpa, ambição, violência, arrependimento, solidão. E mais uma vitória de Nic Pizzolatto.

5star

35 respostas para “Crítica | O ótimo season finale de True Detective”

  1. Kareka_almeida disse:

    Gosto muito dos seus textos, mas acho que vimos séries diferentes! =D

  2. Higor Oliveira disse:

    Os três últimos episódios salvaram a temporada. Boa crítica.

  3. Não chega a ser irretocável como a temporada passada, mas esse ano foi realmente incrível.
    Que soco no estômago foi esse final.

  4. Fabiano disse:

    Não foi isso tudo este season finale não viu. Não foi metade disso tudo. Mas isto, sou eu e minha opinião.

  5. Marceli M. disse:

    Eu acho que até hoje não me recuperei :(

  6. Marceli M. disse:

    Não gostar da temporada como um todo eu entendo, mas o último episódio quase salvou tudo de tão bom que foi, uma pena vc não ter gostado ;~~

  7. Jessé Teixeira disse:

    eu concordo com os dados técnicos, mas a série deixou a desejar sim!! apenas em dois episódios eu realmente me empolguei com o que via na tela.. e claro fazer uma série à sombra da primeira temporada é complicado..

  8. wolmy disse:

    Muito boa a critica,essa temporada foi excelente,não ela não tem que ser parecida com a primeira,teve cenas de ação de tirar o folego,e um desfecho pontual,e a temporada foi toda fechadinha,quem fala que teve um roteiro confuso,sério assista de novo que na real vc só não entendeu.

  9. Crika Martins disse:

    Eu acho que o elenco, foi o acerto dessa temporada, e o final eu fiquei com raiva justamente pelo que o André disse.
    São pessoas tão destruídas emocionalmente, que o fim deles foi a libertação, menos para a Benzer ides que se tornou mãe e ganhou uma amiga (mulher de Frank), e contou sua versão dos fatos para o jornalista do New York Times, e deixou com ele a opção de contar ou não a verdade.
    O Veloso podia pelo menos morrer, mas sabendo que tem tinha dois filhos, coitado e sofreu tanto e teve um fim sozinho e ainda levou a culpa pelo assassinato do chefe de polícia.
    Fora esses detalhes, a série consegui sair da sombra da 1.temporada.

  10. Magnosama disse:

    Fico até feliz, com uma critica tão positiva,
    por eu ter gostado tanto dessa segunda temporada,
    mas a verdade é que eu não curti tanto assim este season finale,
    principalmente por causa de Frank, mas especificamente, sua morte,
    aquele excesso de dramatização me constrangeu um pouco, passou da conta…

    enfim, eu daria 4 estrelas pra temporada toda. (talvez 3, fico na dúvida)

  11. Fabrício R F disse:

    Achei incrível essa temporada! Acho injusto comparar com a primeira (seria como comparar laranjas com maçãs rsrs)….mas o tom está lá, o “peso do mundo” sobre os personagens, os ótimos diálogos (nunca pensei que ficaria feliz em ver Vince Vaughn em um papel dramático tão forte assim, depois de tantas comédias, mas o seu Frank foi simplesmente sensacional)…poderia ter se desenvolvido melhor alguns arcos (por exemplo, achei que Velcoro iria dar cabo do verdadeiro estrupador da sua esposa, que foi preso e ele visita), mas nada que incomode tanto assim no final das contas…..o foco principal nos personagens e seus dramas ainda é mais importante do que o famoso “Whodunit”, e Pizzolatto sabe “acabar” com personagens como ninguém (os diferentes cenários/”elementos” de cada personagem no final é brilhante)…que venha a 3ª temporada e que continue sempre com essa ambientação noir….

  12. Diego disse:

    Ótima crítica, apesar de eu achar o final “um pouco pesado”. Na verdade foi perfeito, mostrando que nem tudo é da vertente que “vai dar certo no fim”. Nada deu certo no fim, nem mesmo a última mensagem do Ray pro filho dele, que falhou o envio. Um final tenso, carregado. As vezes a vida já é difícil demais e buscamos na obra cinematógrafica, um alento. Porém, eu sou um otimista, gostei muito da temporada, do desfecho e principalmente dos quatro personagens principais. Sempre fui crítico do Taylor Kitsch, mas ele entregou um personagem muito, muito bom. Sempre perdido, em dúvida, transmitindo pra gente aquela sensação de “eu não sei o que fazer”. O Vince foi brilhante como um mafioso, vingativo, orgulhoso. O Colin Farrell foi FENOMENAL, até o jeito de falar dele foi incrível, junto com a Rachel. Não sei se sou otimista demais, mas acho que os 4 deram pra série o que se esperava dela. E não dá pra ficar comparando com a 1a. Só o nome é igual, séries distintas.

  13. Marcelo Oliveira disse:

    Com certeza, ele viu de maneira correta e o senhor possivelmente perdeu as partes importantes

  14. Pondexter disse:

    errrrr… Não.
    Única coisa que prestou dessa segunda temporada foi a trilha sonora. Somente isso. Mais nada.

  15. Rodrigo Deway Bacelar disse:

    Nossa, que temporada foi essa que você viu?
    Achei a temporada inteira muito fraca. Diálogos expositivos, excesso de personagens mal desenvolvidos, trama muito arrastada e várias coincidências para tapar os buracos na história.
    Gostei bastante do Colin Farrell e o Vince Vaughn tem bons momentos, mas nem isso conseguiu salvar essa segunda temporada.

  16. Thaiis disse:

    Fiquei destruída com a morte de Velcoro, mas mais ainda com a falha da mensagem! Foi extrema crueldade do Nic Pizzolato esse detalhe. Nem no último minuto da vida ele consegue acertar!

  17. Andre Mangabeira disse:

    Se representarmos True Detective – 2º Temporada em um gráfico, acho que o resultado seria em forma de parábola. Do zero absoluto do 1º episódio até o ápice da excelência máxima. A cena do deserto foi épica. E a morte de Velcoro foi qualquer coisa atingindo a escala Breaking Bad de qualidade. Foda!

  18. Claudia disse:

    Mencionam que não há como comparar a excelente primeira temporada com a segunda. Ok, entendo, mesmo assim, saliento, péssima season 2. Se o Nic Pizzolatto, conseguiu ser tão brilhante na primeira temporada, com aqueles dois atores incríveis, não há razões para poupá-lo de críticas na segunda, se deveria superar a qualidade da primeira? Não, mas pelo menos manter o nível.

  19. Heloisa Martins disse:

    Sensacional! Afinal alguém abriu a cabeça e conseguiu ver a série em si e não intimamente ligada com a 1ª temporada. Obrigada pelo texto! Eu já estava até me sentindo uma idiota por ter gostado (e muito) desta temporada!

  20. Morgana Oliveira disse:

    Alguns episódios bons, alguns momentos (isolados) até muito bons, mas no geral confusa, arrastada, fraca e por vezes até constrangedora (em especial no que tange aos péssimos diálogos) essa S02 de TD. Algumas soluções de plot foram preguiçosas de tão simplistas e outras foram confusas de tão rebuscadas.

    Por falar nisso: “aquela estratégia das máscaras foi napoleônica”? Que estratégia napoleônica vc viu ali? Sério, queria entender, pq devo ter perdido (não estou sendo irônica, devo ter perdido mesmo). Alguém me explica o que tem de excepcional?

    Outra coisa, que CAFONA a cena da morte do Semyon… Aliás, ele morreu pq se recusou a tirar o terno? Taí outra coisa que eu gostaria, sinceramente, que me explicassem… Aquela parte dele revisitando todos os traumas de infância foi um dramalhão constrangedor e culminou no momento patético da Jordan surgindo basicamente pra avisar que ele morreu e aí ele se virar, conferir que tinha morrido mesmo e… GUESS WHAT? Cair morto no chão outra vez. =/ Seguindo essa linha, rs, podia até rolar um lance meio Inception e ele ficar morrendo infinitamente, em looping, dentro dessa alucinação sentimentaloide no meio do deserto, hein? Morria, se dava conta de que havia morrido, morria outra vez, ad infinitum. Hahaha. Que uó.
    Mas a pérola maior da cafonice foi sapecarem, nos 48 da prorrogação do segundo tempo, UM FILHO PRA BEZZERIDES E PRO VELCORO! Seriously!? Eles ficam juntos UMA NOITE, ele morre, ela foge sem ele, o que fazer pra deixar isso tudo ainda mais novelesco e sentimentaloide? Isso mesmo, bora SAPECAR UM FILHO NESSA MISTURA. Hahahaha. Gente, esse bebe surgindo na última cena parecia final de novela da globo: MANOEL CARLOS FEATURING NIC PIZZOLATTO.

    Dito isso, cedo ao argumento de que a história teve lá seus momentinhos bons, sim. A trilha sonora foi muito boa, a fotografia idem, algumas atuações funcionaram muito bem (a cena da Ani e do Frank bebendo no motel foi bem emblemática e dava pra perceber que os atores estavam completamente entregues e dentro dos personagens, conversando com o olhar mesmo). Forçando a barra no otimismo dá pra dar uma nota seis nessa S02 de TD, só o suficiente pra passar de ano, rs.

  21. Ismael Pereira disse:

    Tão de sacanagem ter gostado daquelas mortes imbecis no final. Se queriam matar quase todos personagens, que pelo menos fizessem de forma mais verídica. Velcoro ta tentando sobreviver, manda bem se escondendo nas arvores e mata uns caras, de repente, invés de continuar tentando, se joga na frente de todos pra simplesmente morrer. Frank não cria caso pela mala de dinheiro, mas fica com picuinha por um paletó, e ainda morre pra um inimigo com menos importância que quase não aparece, se fosse pelo menos pra um dos inimigos de verdade e por um motivo plausível, mas aff, totalmente sem graça…

  22. Mario Matto disse:

    No paletó estavam os diamantes e por isso ele não queria tirar.

  23. Morgana Oliveira disse:

    Obrigada, Mario, eu já tava tão distraída pela mediocridade do episódio, que não me atentei pra esse detalhe, embora eu tivesse percebido que algum motivo maior tinha que ter pra enfatizarem tanto o lance do terno. Outra coisa, e o tal lance das máscaras na invasão da cabana? Qual foi a tal ~sacada genial~ do Semyon ali?

  24. Larissa De Mello Borino Schiav disse:

    Ele não quis tirar o terno porque os diamantes estavam no terno

  25. Ele faz questão do paletó por causa dos diamantes guardados nele, que valem mais do que a mala de dinheiro, esqueceu?

  26. Minha grande queixa na verdade é que Pizzolato vendeu a série como (mais um) flerte com o oculto, com os mitos de Cthulhu e o Rei de Amarelo. Houve até mesmo a distribuição de um material promocional com uma estátua do rei em farrapos, o que faria todo o sentido com a história dos delírios difundidos de um dos contos…

    Passei toda a temporada esperando algum plot twist que virasse a história nesse sentido… mas ela não aconteceu e eu fiquei frustrado.

  27. Ismael Pereira disse:

    Esqueci XD

    Mas a do Velcoro podiam ter deixado mais verídica um pouco.

  28. Darlan Silva disse:

    Uma temporada apenas razoável, em minha opinião. Muito confusa.

  29. Sandro Júnior disse:

    Eu concordo com vc, faltou o flerte com esse lance meio “sobrenatural (???)” que foi bastante interessante antes.

  30. Morgana Oliveira disse:

    Isso o Mario já tinha me respondido ali em cima, Larissa.

  31. Jesse Coronado disse:

    Que bom que gostou da temporada. Eu tambem adorei, mas saber respeitar o gosto de cada um cai bem viu.

  32. Jesse Coronado disse:

    Adorei a temporada, muitos aqui nao concordam, mas achei melhor que a primeira, gostei muito da forma como o roteiro veio crescendo em qualidade com o passar dos episodios. Ponto extremamente positivo para o final, que nao se limitou em achar a soluçao para a criminalidade e corrupçao que vinha acontecendo na cidade, isso deixou as coisas muito mais reais, igual vemos acontecer no nosso dia a dia. Os atores estavam brilhantes, destaque para Rachel Mcadams, que me fez acreditar em todo o drama que a personagem vivia. As cenas finais mostrando cada personagem em uma localidade, foi brilhante e de muito bom gosto. Sinceramente vai dar saudade quando a proxima temporada começar e saber que serao outros personagens. Infelizmente alguns nao aproveitaram o roteiro dessa temporada, por ficar comparando uma temporada com a outra, deveriam ser menos saudosistas. Uma dica pra quem nao viu ainda: Esqueçam a 1 temporada e assista sem ficar comparando. Nova historia, novos atores, ou seja nada a ver uma com a outra.

  33. Jesse Coronado disse:

    Os diamantes estavam dentro do paleto, a galera nao presta atençao nas coisas, depois fala que foi ruim

  34. Enezio disse:

    Série instável desde o início ao fim. E não somente pelo enredo confuso, que alguns tomaram como complexo mas também com uma trama que não empolgava e que no fim se revelou decepcionante. Nem mesmo o drama dos personagens eram convicentes, para além disso as atuações – talvez com exceção para Rachel McAdams – foram sofríveis. Além se convenceu com Vince Vaughn com chefão do crime? E que diálogos eram aqueles, que acrescentou na estória aquela comunidade alternativa do pai da policial? que p…foi aquela do Collin Farel ir disfarçado??!! ao shopping com aquele chapelão de mexicano?
    ! risivél. E por fim, como já foi comentado aqui: a cena da morte do Frank foi, no mínimo, contrangedora. Enquanto na primeira temporada teve apenas um diretor em todos os episódios, na segunda foram seis o que talvez explique os defeitos na narrativa e atuações.

  35. Edu disse:

    a segunda temporada poderia ter sido lançada primeiro…rs rs rs
    a história (corrupção) perdeu feio na briga dos personagens com seus problemas pessoas,
    faltou mais essa mistura que com woody e matthew na primeira, foi mais presente
    não culpo os atores, rachel, colin, vince e o taylor foram demais, acho até que o taylor merece mais crédito dos críticos

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