FOTO: REPRODUçãO

Por: Redação Ligado em Série

Crítica | Jogos Vorazes: A Esperança – O Final, de Francis Lawrence

mockingjay1

Quando a birrinha entre a Capital e os Distritos chega a níveis insuportáveis, os rebeldes decidem atacar a cidade dos mil laquês em uma última empreitada para tentar derrubar Snow e distribuir demoracia por toda Paneem.

The Hunger Games: Mockingjay – Part 2 (Jogos Vorazes: A Esperança – O Final) é uma experiência intensa. Eventualmente debanda para aquela abordagem semi-diabética clássica dos blockbusters, é verdade, mas possui uma protagonista tão humana e se dedica com tanto empenho a fazer ela comer o pão que o diabo amassou, trazendo para a arena sacrifício, dor, exaustão e perda, que ignorar a jornada de Katniss simplesmente não é uma opção.

Afinal, o que temos aqui são insurgentes armados apenas com doses cavalares de Braveheart na cabeça contra uma fortaleza onde tudo cai, explode, solta fogo ou dá tiro. E o que Mockingjay – Part 2 faz é atacar ensandecidamente os rebeldes, criando armadilhas tão terríveis quanto criativas (a do líquido preto é particularmente aterrorizante) para criar uma sensação de perigo palpável. Em nenhum momento eles estão a salvo na Capital e a sensação é justamente a de que em nenhum momento eles estão a salvo na Capital (o simples apito do Holo já é o suficiente para criar suspense). Ameaças despencam a galera sem piedade (fogo, metralhadoras – em um dos planos mais inspirados do filme -, criaturas monstruosas genéricas, líquidos pretos com propriedades químicas alucinantes) e Francis Lawrence fotografa a balbúrdia sem espetáculo, cobrindo tudo com uma fotografia dessaturada e cinzenta para lembrar o público que, tal qual o Facebook, aquela uma região é inóspita para pessoas com com uma visão de mundo diferente.

mockingjay2

E quem conduz o espectador por todas essas maravilhas da computação gráfica é Katniss. Usada como arma política por ambos os lados, desconfortável com o papel de ser uma William Wallace de calças, atormentada pelos horrores da guerra e pela inexpressividade de seus dois candidatos a par romântico, a protagonista de Mockingjay – Part 2 é menos uma heroína e mais uma joguete do destino, sujeita à interferência de forças externas maiores do que ela (tipo bombas). Essa vulnerabilidade de Katniss a torna mais humana e facilita a identificação do espectador com a moça, que vê ali uma pessoa comum despejada em uma situação extrema e não uma simples função do roteiro para fazer a história andar. É fácil torcer por ela – e boa parte do mérito se deve a Jennifer Lawrence, de longe a grande sacada da franquia: a atriz encarna a arqueira do Distrito 12 com uma sensibilidade tocante, ilustrando o pavor ou a raiva de Katniss apenas pela intensidade do olhar e das entonações (no momento onde ela fala “cadeado” três vezes de uma forma dolorosamente derrotada foi possível ouvir corações quebrando na sala de cinema).

Além disso, a produção decide sair da areia movediça blockbusteriana e destrinchar alguns questionamentos importantes sobre a guerra (“pensando assim, pode matar quem quiser“) e a utilização da mídia (o complexo de GoPro que faz a equipe de cineastas acompanharem Katniss), levantando pontos interessantes ao optar por um desfecho complexo para o conflito, fugindo do tradicional videogamismo descontrolado de obras que custam dois ou três prêmios de Mega Sena. Entretanto, o que falta em Mockingjay – Part 2 é o choque, a brutalidade definitiva, pois determinadas tragédias são previsíveis desde o início e uma conversa de Snow na estufa estraga o que poderia ser um dos melhores trunfos do filme – colocada ali apenas para explicar aos espectadores de forma powerpointiana o que está acontecendo, claro, em um dos tantos diálogos tão explícitos que atentam contra o pudor. A película também perde força sempre que entra no modo Crepúsculo e traz o triângulo amoroso à tona, até porque parece não existir química entre Katniss e dos dois bonecos de cera que gravitam ao seu redor, e parece se lançar em órbita da abordagem utilizada em duas situações: quando exagera o quanto a protagonista se culpa e ao colocar ali um final que definitivamente foi surrupiado de outro filme e colado na película.

Trazendo como bônus algumas aparições rápidas de Philip Seymour Hoffman (que falta fará), além de elementos técnicos extremamente dedicados a fazer a coisa funcionar (um que outro problema de chroma key, mas sem atrapalhar muito), Mockingjay – Part 2 é um desfecho intenso e explosivo para a quadrilogia, embora tenha mais tropeços que o desejado (além de ficar aquém de Catching Fire e Mockingjay – Part 1, as duas empreitadas anteriores). O destaque mesmo fica por conta da ação e da presença de Jennifer Lawrence em uma produção que, mesmo baseada em um livro infanto-juvenil/voltada para o público infanto-juvenil, consegue ser adulta e complexa suficiente para se destacar nesse grande formigueiro de blockbusters que é Hollywood.

4star

 

3 respostas para “Crítica | Jogos Vorazes: A Esperança – O Final, de Francis Lawrence”

  1. vinland disse:

    Meu Deus sem fica aquem, dos filmes anteriores, nem vou ver esse entao, porque os outros dois sao muito, mas muito ruim. O primeiro foi muito legal, mas os doi ultimos foi foda assistir ate o final.

  2. Renato Santos disse:

    As suas críticas sobre a explicação do desfecho e sobre o fim “família feliz” são na verdade histórias advindas do livro, então a produção do filme nem teve culpa. Aliás, Jennifer fez um ótimo trabalho, pois a personagem é tão sem sal quanto seu par nos livros, seus questionamentos adolescentes lembram “confissões de adolescente”, mas a atriz e a adaptação do roteiro fizeram um ótimo trabalho ao aparar as arestas do exagero e deixar a temática mais adulta. Enfim, belíssimo filme muito bem adaptado! Minhas críticas à série seriam 2: a abordagem caricata do primeiro filme e o primeiro volume da “esperança ” pois foi esticado demais sem necessidade (dá -lhe dinheiro). De qq forma, bela review, parabéns!

  3. adrianotenorio disse:

    Sempre achei desde o primeiro filme a escalação da Jennifer L. muita velha para a personagem como descrita no livro. Mas tudo bem, ela fez do limão limonada e e segurou a onda até daquele Peeta meio insosso. Mas não vou avaliar mais nada, ainda acho que filmes devem existir por pura diversão também. A turma hoje quer discutir a origem da humanidade até nos Minions.

Deixe um comentário

ss